Conheça a torcida organizada cristã que chamou atenção no Brasileirão

Torcida Guerreiros de Cristo (TCG) se destacou durante o empate entre Botafogo e Palmeiras pelo Brasileirão

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(Foto: Reprodução/Record)

Durante o empate sem gols entre Botafogo e Palmeiras, pela 26ª rodada do Brasileirão, chamou atenção de internautas a presença de uma torcida organizada cristã no meio da arquibancada botafoguense. Se trata da Torcida Guerreiros de Cristo (TCG).

“Chamamos Ministério Torcida Guerreiros de Cristo. Começamos em 2014, quando, na igreja em que congregávamos, reencontramos amigos de arquibancada. E também outros torcedores que conhecíamos de vista ou rivais. A gente já era estabelecido na igreja, tínhamos uma vista cristã, e começamos a entender o propósito que Deus tinha com tudo aquilo, reunindo pessoas com a mesma caminhada”, contou Jean Piuco, um dos fundadores do grupo, à TMC.

Muitas pessoas da igreja reprovaram, só que tínhamos aval das lideranças e dos pastores. Tendo essa benção também de pessoas sérias, tivemos esse início. Agora, em julho, completamos 12 anos de trabalho”, emendou.

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À reportagem, Jean relembrou que a organizada foi montada por ele e sua esposa junto de outros dois casais. Atualmente, apenas Jean e sua parceira seguem comandando a TCG, que atualmente conta com CNPJ próprio e até uma sede na rua Anne Frank, em Curitiba, no Paraná.

Para manter o projeto, a Torcida Guerreiros de Cristo realiza eventos, vende produtos e conta com “valores simbólicos” de associados, além de receber doações de apoiadores. Sem ter uma torcida específica, Jean explicou que o lema deles é o “Ide”, ordem de Jesus para levarem o evangelho a diante.

Cada um tem o time que torce. Ninguém tira de ninguém, todos são livres. Temos um cuidado de respeitar as torcidas adversárias que cada um torce. Temos que ser íntegro nas coisas que carregamos para chegar nas torcidas que não fazemos parte ou já fomos rivais um dia”, comentou à TMC.

“Alguns ainda frequentam estádios. Quem tinha prática ruins, não se envolvem mais. Alguns seguem fazendo práticas de outras organizadas e está tudo certo”, explicou. “Eu me privo muito de estar envolvido com torcidas e estádios de futebol, preciso ter uma neutralidade para conversas.”

Essa reciptividade é uma pauta do trabalho da Torcida Guerreiros de Cristo. Jean explicou algumas atitudes para manter boa relação com todas as organizadas: “Fazemos também camisas na cor do clube que estamos visitando. Por exemplo, vamos no jogo do Palmeiras e chegamos lá de preto, mas a camisa por baixo vai estar escrito ‘Jesus’ de verde. Somos critãos, mas entendemos a linguagem das torcidas organizadas. Sabemos fazer, e bem feito.”

“As torcidas organizadas estão cansadas”

(Foto: Divulgação/Torcida Guerreiros de Cristo)

Jean já fez parte de torcidas organizadas, assim como outros membros da TCG. Em sua experiência, o uniformizado destacou que há uma perseguição contra uniformizados.

O povo de torcida organizada está cansado de apanhar de todos os lugares. Sociedade, imprensa, órgãos públicos e até a população… é um massacre na conduta deles. As torcidas organizadas tem papel muito importante na sociedade, muitas vezes o problema está nos indivíduos, e muitas vezes eles levam a culpa (que não são deles). Não pregamos religiões nem igrejas, falamos para eles como Deus enxerga eles. Nisso, se tem alguma coisa que é armado, é desarmado. Tivemos muito boas conversas”, avaliou à TMC.

“Temos uma aceitação extraordinária dos torcedores, porque dificilmente você vai ver um pastor batendo na porta de uma sede de torcida organizada ou de clube de futebol”, destacou. “Temos a prática de pintar bandeiras à mão com frases de ‘Deus te abençoe’ e os logos desses clubes para entregar. Num mundo onde torcedores morrem com um pedaço de pano, como não receber pessoas que estão te levando uma bandeira?

Dos anos 1990 para cá, se acompanha uma escalada na violência do futebol brasileiro, com conflitos entre torcedores escalonando e sendo frequente ver casos de morte. Em outubro de 2024, a Mancha Verde, organizada do Palmeiras, emboscou a cruzeirense Máfia Azul. O ataque resultou na morte do motoboy José Victor Miranda, de 30 anos, e deixou 17 feridos.

Casos como esse impactam na percepção das uniformizadas e criam preconceitos que a Torcida Guerreiros de Cristo vem tentando derrubar. Questionado sobre como torcedores que não são cristãos lidam com a torcida, Jean contou que nunca houve nenhum incidente.

O pessoal (de torcida organizada) está cansado de só receber críticas. Quando estamos lá para falar algo positivo para eles, é onde desarma. Mas sentimentos que algumas pessoas mesmo não gostando só ficam mais afastados. Eles respeitam”, avaliou.

“A gente sempre trata com as lideranças, com quem manda. Respeitamos todos, mas não estamos preocupados com quem apoia ou não, porque quem levou a gente para dentro são as lideranças. Então, ficamos bem tranquilos quanto a isso (possíveis agressões)“, concluiu.

Inspiração na Gaviões da Fiel

Além da Gaviões da Fiel, outras torcidas organizadas foram ao Parque São Jorge nesta quinta-feira (12/03)
(Foto: Gaviões da Fiel via X)

Quando foi flagrada na torcida do Botafogo, a Torcida Guerreiros de Cristo estava fazendo uma excursão no Rio de Janeiro. O grupo visitou a Fúria Jovem, organizada botafoguense, a Força Jovem, do Vasco, e a Young Flu, do Fluminense.

A maior inspiração da TCG, porém, é a Gaviões da Fiel, principal organizada do Corinthians. “Somos de Curitiba e muita gente nunca saiu do Sul, então quando chegam em São Paulo veem as grandes torcidas, temos dimensão da grandeza. Estar com eles é diferente, é bacana a interação. Tivemos duas vezes contato com a Gaviões da Fiel. Quando fomos a primeira vez, em 2019, tínhamos acabado de pegar o nosso barracão, e a Gaviões é uma referência, assim como outras. Quando pisamos na quadra da Gaviões, foi uma inspiração. Dificilmente chegaremos no nível da Gaviões da Fiel ou de outras de São Paulo, mas pudemos ver como funcionava, questão de logística. E isso nos inspirou”, contou o líder da TCG à TMC.

E os palavrões?

Apesar de ser um ambiente familiar, os estádios de futebol também costumam ser tratados como um local de descarregos com palavrões, xingamentos e ofensas. Nesses momentos, a Torcida Guerreiros de Cristo fica em silêncio.

Frequentamos todas as torcidas. Do Botafogo, do Palmeiras, do Vasco, do Fluminense… Quando eles puxam algum canto com palavrão ou ofensa, nos calamos. Quando puxarem alguma música de incentivo, vamos cantar”, ponderou Jean.

“A gente respeita, porque estamos no ambiente deles. É só não cantarmos (músicas com palavrões) e está tudo certo. Jamais xingaremos uma torcida que está no outro lado. A mesma admiração que temos com a torcida que estamos ao lado, temos com a que está do outro lado“, finalizou.

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