A Espanha precisou esperar décadas para deixar para trás a fama de “amarelona” e conquistar seu espaço entre as campeãs do mundo. Depois de sucessivas eliminações traumáticas em Copas e de conviver com a pressão de nunca corresponder às expectativas, a seleção espanhola enfim alcançou o topo ao vencer a Holanda por 1 a 0, na final da Copa do Mundo de 2010, disputada em Joanesburgo, na África do Sul.
O herói da decisão foi Andrés Iniesta, que marcou a quatro minutos do fim da prorrogação, garantindo o primeiro e único título mundial da história da Espanha. O gol coroou uma geração considerada uma das melhores do futebol mundial, formada por jogadores como Xavi, Iker Casillas, Sergio Ramos, Carles Puyol, David Villa e o próprio Iniesta.
A conquista também consolidou o tiki-taka, estilo de jogo baseado na posse de bola e na troca rápida de passes, desenvolvido por Luis Aragonés e aperfeiçoado por Vicente del Bosque. Além do título inédito, a Espanha tornou-se a primeira seleção europeia a conquistar uma Copa do Mundo disputada fora da Europa.
A final, no entanto, ficou longe de ser um espetáculo técnico. A Holanda adotou uma postura extremamente física para tentar neutralizar o jogo espanhol, e a partida entrou para a história como a mais violenta entre todas as finais de Copa do Mundo. O árbitro inglês Howard Webb distribuiu 14 cartões amarelos e um vermelho, estabelecendo um recorde para decisões do torneio.
Um dos momentos mais polêmicos aconteceu ainda no primeiro tempo, quando Nigel de Jong acertou um chute no peito de Xabi Alonso. Apesar da gravidade da entrada, recebeu apenas cartão amarelo. Anos depois, o próprio Webb admitiu que o lance deveria ter resultado em expulsão.
No segundo tempo, a Espanha escapou de sofrer o gol graças a uma defesa histórica de Iker Casillas, que parou Arjen Robben em um lance cara a cara. A intervenção manteve o empate e abriu caminho para o desfecho da prorrogação.
Já com um jogador a mais após a expulsão de John Heitinga, a Espanha pressionou até que Cesc Fàbregas encontrou Iniesta livre na área. O camisa 6 dominou e bateu cruzado para marcar o gol mais importante da história da seleção espanhola. Na comemoração, retirou a camisa e exibiu a mensagem “Dani Jarque siempre con nosotros”, homenagem ao amigo e ex-jogador do Espanyol, morto no ano anterior.
A “maldição” das quartas de final
Durante muito tempo, a Espanha parecia ter um bloqueio psicológico assim que chegava às quartas de final de grandes torneios. O time sempre fazia campanhas empolgantes na fase de grupos, mas falhava nos jogos decisivos.
- Copa de 1986: eliminação para a Bélgica na disputa de pênaltis.
- Copa de 1994: derrota traumática para a Itália por 2 a 1, marcada pelo gol de Roberto Baggio no fim e pela cotovelada impune de Tassotti, que quebrou o nariz de Luis Enrique.
- Copa de 2002: nova eliminação nas quartas, dessa vez para a anfitriã Coreia do Sul, nos pênaltis, em uma partida marcada por erros bizarros de arbitragem contra os espanhóis.
O contraste entre clubes e seleção
Real Madrid e Barcelona sempre foram verdadeiros colossos na Europa, dominando a Liga dos Campeões e revelando grandes talentos nacionais, como Emilio Butragueño, Fernando Hierro e Raúl González. O mundo do futebol esperava que os jogadores que brilhavam nos clubes transferissem esse domínio para a seleção. A incapacidade de replicar esse sucesso com a camisa nacional tornava os tropeços da Espanha ainda mais escandalosos para a imprensa e para os torcedores.
Raúl foi, por quase uma década, o grande símbolo dessa frustração e a personificação do peso que a seleção espanhola carregava. Ele era o “Menino de Ouro” da Espanha, o capitão e o maior artilheiro da história da seleção até ser ultrapassado por David Villa. Como ele era a grande estrela global do país e empilhava títulos pelo Real Madrid (incluindo três Ligas dos Campeões), a imprensa e a torcida colocavam sobre os ombros do camisa 7 a responsabilidade de liderar a Espanha à glória mundial.
Se houve um momento que definiu o peso nas costas do ídolo merengue, foi nas quartas de final da Eurocopa de 2000, contra a França (que era a atual campeã mundial). A Fúria perdia por 2 a 1, mas teve um pênalti a seu favor aos 44 minutos do segundo tempo. A responsabilidade caiu nos pés de Raúl. Ele bateu e isolou a bola por cima do gol de Barthez. A imagem dele, desolado, com as mãos no rosto após o apito final, virou o retrato de uma geração que fracassava na “hora H”.
Fiascos históricos em Copas
Além de parar nas quartas, a Espanha protagonizou vexames em momentos em que era considerada favorita:
- A Copa em casa (1982): Sediando o torneio, a expectativa era enorme. No entanto, a equipe fez uma primeira fase muito fraca (perdendo para a Irlanda do Norte) e foi eliminada na segunda fase de grupos sem vencer nenhuma partida.
- O desastre de 1998: A Espanha chegou à França como uma das grandes candidatas ao título, mas foi eliminada precocemente ainda na fase de grupos, após uma derrota surpreendente para a Nigéria e um empate sem gols com o Paraguai.
O título de 2010 representou o fim definitivo de um estigma histórico. A transformação começou com a conquista da Eurocopa de 2008, que encerrou o complexo de inferioridade da seleção e preparou o caminho para a campanha vitoriosa na África do Sul. Dois anos depois, o brilho de Iniesta colocou a Espanha definitivamente entre as campeãs do mundo e apagou a fama de seleção que sucumbia nos momentos decisivos.
Leia mais: Lamine Yamal pode entrar para grupo seleto de campeões mundiais mais jovens da história




