As ausências de Romário em 98 e 2002, de Falcão em 78 ou mesmo Ganso, Neymar, Adriano e Ronaldinho em 2010 não fizeram nem cócega na repercussão da convocação de Neymar para a Copa de 2026. E isso, por si só, já mostra como essa discussão sobre o craque do Santos é exagerada. E pautada muito mais pelo que o atleta faz fora de campo do que pelo que não tem feito dentro do mesmo.
Há alguns meses a questão era sobretudo física e médica. E sempre fiz observações baseando-me nesse tema. Neymar parecia não conseguir jogar duas partidas consecutivas. A impressão que tínhamos é que aguentaria jogar de maneira intensa apenas durante 30 ou 40 minutos. E que depois, necessariamente, teria que se ausentar do jogo seguinte pra poder correr mais 40 ou, com alguma sorte, 50 minutos, na rodada posterior.
O tempo passou e Neymar conseguiu superar essa fase de desconfiança do ponto de vista clínico. Nos últimos dois meses, jogou a maioria das partidas do Santos e colaborou de maneira decisiva em algumas delas. Foi o Neymar de outros tempos, “fazendo chover”? Nem perto disso. E certamente não será na Copa.
E tudo bem discutirmos sobre essa fase bastante irregular. Vale a pena convocar um craque que rende menos do que o esperado por boa parte de uma nação? Vale apostar num atleta com histórico recente de lesões e poucos jogos por temporada? É justo convocar alguém que esteve fora das últimas convocações, enquanto outros suavam a camisa pra tentar uma vaga na lista mais desejada por todos os boleiros?
Essas seriam perguntas honestas e pertinentes. E a minha resposta pra todas elas seria: futebol nem sempre tem relação com justiça e muitos outros jogadores veteranos ou com problemas de lesão foram convocados pra Mundiais antes de Neymar. E ok, o santista não tem sido desequilibrante no Brasileirão, mas tende a jogar mais ao lado de craques como Raphinha e Vini Jr.. E convenhamos, não está tão abaixo nesse momento (se é que está abaixo) de Gabriel Martinelli, que também aparece na lista.
Mas as críticas dos jornalistas contrários a essa convocação focam, invariavelmente, num suposto péssimo comportamento do atleta em vestiários e concentrações, como se ele fosse contaminar o grupo ou trazer uma pressão a mais pro sonho do hexa. Preocupações que não combinam com avaliações já conhecidas de treinadores consagrados, como Tite, Muricy e Felipão.
Ainda assim, é normal pensar no coletivo e no ambiente quando um jogador diferenciado e midiático volta ao convívio de um grupo. A questão é como essa discussão é apresentada. Impossível não notar as risadinhas sarcásticas, a torcida pra que dê tudo errado e até mesmo, sem medo de exagerar, o ódio de alguns jornalistas pelo jogador. É bastante constrangedor inclusive.
Como escrevi acima, a grande questão para os detratores de Neymar não é o que ele joga ou deixa de jogar. Mas o que faz fora de campo ou talvez, sejamos sinceros… o que deixou de fazer… ou em quem deixou de votar. Infelizmente nos dias atuais, pra parte da nossa imprensa, ou você vota em quem “nós” queremos, ou você vira persona non grata. Neymar é apenas a vítima mais famosa desse modus operandi de alguns (vários, pra ser bem sincero) consagrados jornalistas.
Voltando pra dentro de campo, muito mais inusitada ou polêmica do que o nome de Neymar na lista foi a lamentável ausência de João Pedro da mesma. Nada contra os ótimos Endrick e Igor Thiago, mas o ciclo do atacante do Chelsea foi mais regular.
Alguém pode então argumentar: “mas ele não teria perdido a vaga pro Neymar?”. Não tenho como entrar na cabeça de Ancelotti e fornecer essa resposta, mas tiraria vários outros atletas da lista para ver o decisivo atacante do Chelsea na Copa. Um zagueiro, Danilo, algum dos atacantes citados acima e até o próprio Neymar.
Perdemos tempo discutindo a convocação aguardada do maior artilheiro da história da seleção, mas quase não falamos de João Pedro. Bola fora do treinador, bola fora também da mídia. Mais uma…