Para começar, o que vou escrever aqui é o relato de alguém que estava no local, presenciou o fato muito de perto, conversou com pessoas envolvidas e tem uma opinião baseada numa realidade um pouco diferente de quem apenas viu o caso pela televisão ou pelas redes sociais.
Depois da derrota do Corinthians para o Santos por 1 a 0, comecei a ouvir uma confusão, gritos e xingamentos vindos dos setores sul e oeste do estádio.
Quando fui ver o que estava acontecendo, percebi que Neymar estava entregando uma camisa do Santos a um garoto que estava no setor oeste.
Os xingamentos eram direcionados ao garoto e não ao ídolo santista.
Neymar entregou a camisa e saiu.
Acontece que, quando receberam a camisa, os pais do garoto levantaram a peça para mostrar aos torcedores que estavam ao lado, como uma espécie de troféu conquistado pelo menino junto ao seu grande ídolo.
Foi aí que a situação piorou.
Começaram os xingamentos e as ameaças, tanto no setor oeste, onde estava a família, quanto no setor sul, de onde vários torcedores acompanhavam tudo o que acontecia.
O garoto, claro, se assustou.
A família ficou acuada e foi ajudada inicialmente por alguns torcedores que estavam próximos, numa tentativa de evitar que a situação ficasse ainda mais grave.
Poucos minutos depois chegaram policiais militares, que afastaram alguns dos torcedores mais exaltados que estavam perto da família.
Policiais que estavam no campo e seguranças do Corinthians pediram então que a família descesse pela escada que dá acesso ao gramado, evitando assim o contato direto com os torcedores que os hostilizavam.
Antes de descer, a mãe do garoto jogou a camisa de Neymar para um policial que estava no campo.
Quando a família chegou ao gramado, o policial pediu ao pai da criança que guardasse a camisa dentro de uma mochila preta.
Era uma tentativa bastante óbvia de fazer desaparecer, pelo menos visualmente, o objeto que havia provocado toda aquela confusão.
Não adiantou.
Os xingamentos aumentaram, assim como as hostilidades, e quase houve um princípio de tumulto mais grave.
Alguns torcedores começaram a jogar objetos na direção da família enquanto ela deixava o gramado pelo portão sul, escoltada pela Polícia Militar e por seguranças do Corinthians.
Os policiais gritavam para a família:
“Não olhem para cima.”
A ideia era principalmente evitar que o garoto prestasse atenção no que estava sendo gritado contra ele.
Quando chegaram à parte interna do estádio, a situação finalmente ficou mais calma.
Os pais puderam comemorar o fato de terem conseguido a camisa de Neymar.
Mas a criança, de apenas oito anos, estava claramente assustada com tudo aquilo.
Ela chegou a posar para algumas fotos, mas, na minha percepção, muito mais pela insistência dos pais do que por vontade própria.
O garoto parecia querer apenas ir embora dali.
Os policiais então levaram a família, formada pelo garoto, seus pais e sua avó, até a delegacia que funciona dentro da Neo Química Arena.
Lá, avisaram que pediriam um carro de aplicativo para retirá-los diretamente do estádio, sem que precisassem sair para a rua e eventualmente encontrar torcedores que tivessem acompanhado toda a confusão.
Agora, a minha opinião.
E vou dividi-la em quatro partes.
Primeiro, quero dar os parabéns à Polícia Militar e aos seguranças do Corinthians.
Agiram com firmeza contra os torcedores que hostilizavam e ameaçavam a família e, ao mesmo tempo, tiveram cuidado com um garoto de apenas oito anos que estava assustado no meio de uma situação que jamais deveria ter vivido.
Na minha visão, policiais e seguranças foram perfeitos na condução do caso.
Segundo: a criança.
Um garoto de oito anos não tem ideia da dimensão da rivalidade entre dois grandes clubes.
Não sabe que, dentro do estádio do Corinthians, pedir uma camisa a um jogador rival pode provocar uma reação desse tipo.
Seja Neymar, Messi, Cristiano Ronaldo ou Pelé.
Na cabeça de um adulto acostumado ao futebol, num estádio do Corinthians você pede a camisa de Yuri Alberto, Memphis Depay, Matheus Bidu ou qualquer outro jogador do time.
Mas estamos falando de uma criança.
Ela não conhece essas regras informais.
Não entende ainda tudo aquilo que está em volta de uma rivalidade no futebol.
E não tem culpa NENHUMA do que aconteceu.
Nenhuma.
Terceiro: os pais.
Pelo que consegui apurar, eles não conheciam a Neo Química Arena e estavam pela primeira vez no estádio.
Também são de fora do estado de São Paulo.
Isso ajuda a explicar bastante o que aconteceu.
Se fossem frequentadores habituais do estádio, muito provavelmente saberiam que levantar uma camisa do Santos no meio da torcida do Corinthians, logo depois de uma derrota em clássico, poderia provocar algum tipo de reação.
Não estou dizendo que a reação é certa.
Muito menos defendendo ameaça ou violência.
Estou dizendo que existe uma regra não escrita no futebol brasileiro.
E ela não existe apenas no Corinthians.
Em 2021, na Vila Belmiro, o garoto Bruninho, de nove anos, foi hostilizado por torcedores do Santos depois de receber uma camisa do goleiro Jailson, então jogador do Palmeiras.
Em 2025, no Beira-Rio, um jovem torcedor do Internacional recebeu um colete de Willian, jogador do Grêmio, e também houve revolta de colorados próximos ao local.
Ou seja, esse tipo de reação não é uma exclusividade corintiana.
Infelizmente faz parte de algo arraigado na cultura do futebol.
Quem frequenta estádio sabe disso.
É como entrar na Neo Química Arena usando algum adereço verde.
Pode estar certo ou errado, mas você sabe que aquilo provavelmente vai criar uma enorme confusão.
O futebol é um mundo à parte.
Tem suas regras escritas e várias outras que ninguém colocou no papel, mas todo mundo que vive esse ambiente conhece.
Como os pais não conheciam o estádio e aparentemente não estavam acostumados àquele ambiente, provavelmente não imaginavam a dimensão que aquilo poderia tomar.
Ainda assim, na minha opinião, tiveram uma parcela de responsabilidade ao não perceber o lugar onde estavam e o risco de transformar aquela camisa em uma espécie de troféu diante da torcida.
Nada, absolutamente nada, porém, justifica aquilo que aconteceu depois.
E aí chegamos ao quarto ponto.
Alguns torcedores do Corinthians.
Faço questão de escrever “alguns”.
Não foi a torcida do Corinthians que hostilizou uma criança.
Não foi a torcida do Corinthians que ameaçou uma família.
Foram alguns torcedores do Corinthians.
Existe uma mania enorme, especialmente quando acontece algum episódio desse tipo, de transformar a atitude de algumas centenas de pessoas na atitude de uma torcida com milhões de integrantes.
Não é correto.
A torcida do Corinthians não fez aquilo.
Alguns corintianos fizeram.
Pessoas agressivas, sem qualquer capacidade de medir o que estavam fazendo e que, naquele momento, se comportaram como verdadeiros animais.
Gente capaz de jogar objetos na direção de uma criança de oito anos e ameaçar uma família por causa de uma camisa de futebol.
Você pode não gostar do que aconteceu.
Pode achar absurdo um corintiano pedir uma camisa do Neymar dentro da Neo Química Arena.
Pode reclamar.
Pode dizer que aquilo não deveria acontecer.
Mas ameaçar uma criança?
Jogar objetos?
Obrigar uma família a sair do estádio escoltada pela polícia?
Isso ultrapassa qualquer limite.
Estamos falando, sendo muito generosos na conta, de algumas centenas de pessoas dentro de um estádio que recebe dezenas de milhares de corintianos.
Esses torcedores não representam a Fiel.
E, sinceramente, pessoas que não conseguem conviver minimamente com algo que as desagrada talvez nem devessem estar dentro de um estádio.
Que ficassem bravas com a atitude.
Que reclamassem dos pais.
Que dissessem que aquilo não deveria acontecer.
Mas que parassem aí.
O que aconteceu depois foi violência.
Felizmente não chegou à agressão física, principalmente pela atuação rápida dos policiais e dos seguranças.
Mas houve violência verbal, intimidação e ameaça.
O episódio certamente vai deixar uma marca naquele garoto.
Ele provavelmente vai se lembrar para sempre do dia em que conseguiu a camisa do seu ídolo Neymar.
E infelizmente também vai se lembrar do que aconteceu logo depois.
Os pais, pelo que pude observar naquele momento, pareciam muito mais preocupados em comemorar a camisa conquistada do que com a dimensão do episódio que tinham acabado de viver.
Já o garoto estava assustado.
Muito.
Espero sinceramente que uma situação assim não volte a acontecer.
Crianças podem idolatrar jogadores de futebol, cantores, atores ou qualquer outra pessoa.
Podem querer uma camisa do Neymar.
Podem gostar do Corinthians e admirar um jogador do Santos.
Isso faz parte da inocência de uma criança.
Mas o futebol, infelizmente, ainda não sabe lidar muito bem com essa inocência.
Especialmente dentro de um estádio e no meio de uma rivalidade.
É triste dizer isso.
Mas a inocência de uma criança ainda não cabe num estádio de futebol.