O Corinthians contratou em 2013 um financiamento de R$ 400 milhões para a construção da Arena.
Treze anos depois, a dívida com a Caixa Econômica Federal continua na casa dos R$ 630 milhões a R$ 640 milhões, mesmo depois de centenas de milhões de reais pagos pelo clube ao longo desse período.
E agora apareceu uma pergunta que, pelo menos publicamente, nunca tinha sido feita desta forma:
Como exatamente a Caixa chegou a esses números?
O Ministério Público abriu um procedimento após receber uma representação baseada na análise de documentos públicos feita por Anísio Costa Castelo Branco.
O documento aponta uma possível diferença de R$ 255,75 milhões no saldo apresentado pela Caixa em agosto de 2019. Naquele momento, o banco cobrava cerca de R$ 536 milhões.
A representação também diz que não foram encontradas nos autos as planilhas e memórias detalhadas de cálculo que permitiriam acompanhar passo a passo a evolução da dívida.
Isso ainda não significa que a Caixa tenha cobrado valores indevidos. É justamente o que a perícia determinada pelo Ministério Público terá que verificar.
Mas a história chama atenção porque o Corinthians discute essa dívida há mais de uma década.
Em 2016, o clube ficou mais de um ano sem pagar o financiamento e depois renegociou as condições.
Em 2019, a Caixa foi à Justiça cobrar os R$ 536 milhões. Andrés Sanchez contestava parte da cobrança e dizia que havia um acordo verbal com o banco.
Havia divergências sobre multa, parcelas e condições.
Mas não sobre uma diferença de centenas de milhões na formação do saldo principal.
Depois vieram novas negociações.
No fim de 2020, houve um entendimento para ampliar o prazo até 2040.
Em 2022, já na gestão Duílio Monteiro Alves, foi assinado um novo acordo, com dívida em torno de R$ 611 milhões.
Naquele período, empresas como KPMG e Falconi participaram de trabalhos de consultoria financeira do clube. Depois, na gestão Augusto Melo, a Ernst & Young também foi contratada para trabalhos de governança e revisão interna.
E a dívida da Arena continuou sendo negociada com base nos valores apresentados pela Caixa.
Em 2025, já com Osmar Stábile na presidência, houve nova rodada de conversas com o banco.
Romeu Tuma Júnior chegou a defender que o Corinthians parasse de pagar caso não conseguisse condições melhores.
Andrés Sanchez participou de uma das reuniões. Stábile disse depois que não havia convidado o ex-presidente, enquanto Tuma defendeu sua presença por ele conhecer profundamente a negociação original da Arena.
Mais uma vez se discutiram juros, prazo, índice de correção e forma de pagamento.
Mas a pergunta central que surgiu agora não apareceu naquele momento:
Como foi formado o saldo devedor?
Andrés Sanchez.
Duílio Monteiro Alves.
Augusto Melo.
Osmar Stábile.
Quatro administrações passaram pela discussão da Arena.
Houve conselheiros, diretores financeiros, advogados, consultorias e incontáveis reuniões com a Caixa.
O Corinthians questionou multa, juros, prazos e condições em diferentes momentos.
Mas, pelo menos até onde os documentos públicos mostram, nunca colocou no centro da discussão a formação da conta principal da maneira como está sendo feito agora.
Talvez a Caixa esteja completamente certa.
Talvez a representação esteja errada.
Talvez exista uma explicação técnica para todos os valores.
É exatamente isso que a investigação terá que mostrar.
Mas depois de uma dívida que começou em R$ 400 milhões, de centenas de milhões já pagos e de um saldo que ainda supera R$ 600 milhões, a pergunta finalmente apareceu:
Como essa conta foi feita?