Jéremie Martin. Esse era o nome registrado nos sistemas do Hospital Universitário de Grenoble quando Michael Schumacher deu entrada na unidade após o acidente nos Alpes franceses, em 2013. O pseudônimo era só o começo de um esquema de sigilo que poucos hospitais já precisaram montar.
O heptacampeão da Fórmula 1 chegou de helicóptero, pilotado por Yannick Dainese. A bordo, um socorrista avisou a Dainese sobre o passageiro. Segundo o piloto, o comandante ordenou que todos retirassem os equipamentos de gravação e impediu que jornalistas embarcassem. Só então Dainese entendeu que a missão era real.
Lesões graves e protocolo de emergência
O quadro clínico era sério. Schumacher apresentava hipertensão intracraniana, hematomas, contusões cerebrais, edema cerebral difuso e fratura craniana com afundamento. A equipe médica o submeteu a cirurgias de emergência para reduzir a pressão no crânio e o colocou em coma induzido com resfriamento corporal controlado.
A diretora do hospital, Jacqueline Hubert, descreveu o protocolo adotado. Segundo ela, tudo foi discutido com a família para definir o que podia e o que não podia ser divulgado. O lema dela, conforme declarou, era ser humana sem comprometer o funcionamento da unidade.
O chefe de anestesiologia e terapia intensiva, Jean-François Payen, e o neurocirurgião Stephan Chabardes estavam entre os responsáveis pelo tratamento. Emmanuel Gay chefiava o departamento de neurocirurgia. A equipe inteira envolvida nos cuidados era restrita a 50 pessoas.
Visitas controladas, prontuários no cofre
Os registros médicos de Schumacher foram guardados em cofre. As visitas seguiam lista fechada: apenas Felipe Massa, Gerhard Berger e Luca Badoer tinham autorização da família. O ex-piloto Olivier Panis foi barrado.
Do lado de fora, a imprensa tentava de tudo. Jornalistas buscaram jalecos para se passar por funcionários. Um deles chegou a se disfarçar de padre. Fotógrafos subiram a uma colina próxima com lentes teleobjetivas para tentar capturar imagens do quarto.
Enquanto isso, Corinna Schumacher percorria cerca de 174 km por dia entre Gland, na Suíça, e o hospital na França para acompanhar o marido. Os filhos Mick e Gina, além do pai e do irmão Ralf, permaneceram na unidade hospitalar durante o período mais crítico.
Aniversário de 45 anos sob coma
Em 3 de janeiro de 2014, Schumacher completou 45 anos ainda sob coma induzido. A Ferrari organizou uma homenagem com caravana de torcedores no entorno do hospital. O piloto do helicóptero de resgate, Dainese, descreveu a cena dias depois: ônibus, bandeiras vermelhas e multidão transformaram o pátio da unidade em algo que ele comparou a um circuito de corrida. Segundo ele, a visão foi impactante.
Hubert, por sua vez, afirmou que, antes de saber de quem se tratava, via Schumacher como mais um esquiador gravemente ferido. Quando seu filho a informou sobre a identidade do paciente, ela entendeu de imediato a dimensão do que estava por vir.
Karl Schaller, chefe de neurocirurgia dos Hospitais Universitários de Genebra, apoiou a família durante o processo. Jean Todt, amigo próximo de Schumacher e ex-dirigente da Ferrari, conduziu a transferência do piloto para Lausanne.
Schumacher foi retirado do coma induzido em junho de 2014 e deixou o hospital na virada do dia 15 para 16 de junho de 2014.




