A expulsão de David Beckham nas oitavas de final da Copa do Mundo de 1998, diante da Argentina, quase encerrou precocemente a carreira internacional do meia inglês. Aos 23 anos, ele passou de uma das maiores promessas do futebol mundial ao principal responsável pela eliminação da Inglaterra, tornando-se alvo de críticas, ameaças e perseguições que, anos depois, o próprio jogador e sua esposa, Victoria Beckham, revelaram ter provocado um quadro de depressão clínica.
O episódio aconteceu em Saint-Étienne, quando Inglaterra e Argentina empatavam por 2 a 2. Logo no início do segundo tempo, Beckham sofreu uma falta de Diego Simeone e, ainda caído no gramado, reagiu com um leve chute na direção do argentino. Simeone valorizou o contato, o árbitro dinamarquês Kim Milton Nielsen mostrou cartão vermelho direto, e os ingleses seguiram com um jogador a menos. A partida terminou empatada e a Argentina avançou nos pênaltis.
A eliminação transformou Beckham em “inimigo público número 1” na Inglaterra. A imprensa britânica o responsabilizou pela derrota, enquanto torcedores queimaram bonecos com sua imagem e passaram a hostilizá-lo em praticamente todos os estádios. O meia e sua família também receberam ameaças de morte.
No documentário Beckham, lançado pela Netflix em 2023, Victoria revelou que o marido ficou “clinicamente deprimido” após a Copa. O ex-jogador contou que não conseguia comer nem dormir, sofria abusos diariamente nas ruas e ouvia insultos sempre que aparecia em público. Segundo ele, o episódio foi tão traumático que até hoje tem dificuldade para falar sobre o assunto.
O apoio do técnico Alex Ferguson foi decisivo para impedir que a carreira desmoronasse. À frente do Manchester United, o treinador escocês protegeu o jogador, que respondeu em campo com atuações de alto nível e participou da histórica conquista da tríplice coroa do clube na temporada 1998/99.
Anos depois, o próprio Simeone admitiu que explorou a situação de forma estratégica. Em entrevistas e no documentário da Netflix, o argentino reconheceu que exagerou a reação ao chute para chamar a atenção do árbitro e provocar a expulsão do inglês. Segundo ele, o contato não justificaria um cartão vermelho pela intensidade, mas fazia parte das “artimanhas” do futebol aproveitar a reação impulsiva do adversário.
Reviravolta no Mundial seguinte
A redenção de Beckham começou em 2001, quando marcou, já como capitão da Inglaterra, um histórico gol de falta contra a Grécia nos acréscimos, garantindo a classificação da seleção para a Copa do Mundo de 2002.
O ciclo se fechou justamente contra a Argentina. Na fase de grupos do Mundial da Coreia do Sul e do Japão, em 2002, Beckham converteu o pênalti que deu a vitória por 1 a 0 aos ingleses, em um duelo encarado como sua revanche pessoal quatro anos após o trauma da França. A vitória do English Team foi fundamental para eliminar o algoz de quatro anos antes na fase de grupos.
Quase três décadas depois, o episódio já pertence à história. Beckham e Simeone mantêm uma relação cordial e chegaram a se reencontrar recentemente nos Estados Unidos, onde posaram juntos para uma foto.
O lance que quase destruiu a carreira do inglês permanece como um dos momentos mais marcantes das Copas do Mundo e um exemplo de como um erro em campo pode mudar a trajetória de um atleta — e de como a superação pode transformar um vilão em ídolo nacional.




