O transtorno bipolar é uma condição complexa que envolve alterações em diferentes sistemas do cérebro. A ciência ainda não tem uma explicação única para a doença, mas pesquisas apontam que ela resulta da combinação de fatores genéticos, mudanças nos circuitos cerebrais responsáveis pelas emoções e alterações na comunicação entre neurônios.
Segundo o neurocirurgião Feres Chaddad, da Beneficência Portuguesa de São Paulo, os estudos mostram que o transtorno bipolar tem forte influência genética. Pesquisas com gêmeos e famílias indicam que entre 60% e 80% do risco de desenvolver a doença pode estar relacionado à hereditariedade.
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No entanto, não existe um único gene responsável pela condição. O transtorno bipolar tem uma base genética poligênica, ou seja, diversas variantes genéticas contribuem para aumentar a vulnerabilidade à doença.
“Múltiplas variantes genéticas de pequeno efeito contribuem para aumentar a vulnerabilidade ao transtorno. Grandes estudos genômicos já identificaram dezenas de regiões do genoma associadas ao risco da doença, muitas delas relacionadas à sinalização sináptica e ao funcionamento de neurônios no córtex pré-frontal e no hipocampo”, explica Chaddad.
Alterações na comunicação entre neurônios
Estudos também identificaram alterações em áreas do cérebro ligadas à regulação das emoções, como o córtex pré-frontal e o hipocampo. Essas regiões participam do controle do humor, da tomada de decisões e da resposta emocional.
Outro ponto investigado pelos cientistas envolve a regulação do cálcio dentro das células nervosas. Genes ligados aos chamados canais de cálcio, responsáveis pela transmissão de sinais entre neurônios, aparecem com frequência em pesquisas genéticas sobre o transtorno bipolar.
Quando há alterações nesse mecanismo, pode ocorrer um desequilíbrio na excitabilidade dos neurônios, o que pode influenciar o funcionamento dos circuitos cerebrais associados ao humor.
“Genes que codificam canais de cálcio dependentes de voltagem, especialmente o CACNA1C, aparecem de forma recorrente em estudos genéticos. Esses canais participam da transmissão de sinais entre neurônios e da regulação da excitabilidade neuronal. Alterações nesses mecanismos podem modificar a atividade de redes cerebrais envolvidas na regulação do humor e do comportamento”, destaca o médico.
“Diversos estudos apontam mudanças no funcionamento de redes cerebrais responsáveis pela regulação emocional. As regiões mais frequentemente envolvidas incluem o córtex pré-frontal, a amígdala, o hipocampo e as estruturas do sistema límbico. Essas áreas formam circuitos responsáveis pelo controle das emoções, pela tomada de decisões e pela avaliação de estímulos emocionais. Evidências de neuroimagem sugerem que, no transtorno bipolar, pode haver um desequilíbrio entre regiões que geram respostas emocionais e aquelas que exercem controle cognitivo sobre essas respostas, contribuindo para a instabilidade de humor característica da doença.“
Doença envolve vários fatores
Além da genética e das alterações nos circuitos neurais, estudos indicam que o transtorno bipolar também pode estar associado a:
- mudanças na comunicação entre neurônios;
- alterações metabólicas nas células cerebrais;
- processos inflamatórios no organismo;
- distúrbios nos ritmos biológicos, como o ciclo sono-vigília.
De acordo com especialistas, a combinação desses fatores ajuda a explicar a complexidade da doença.
Quando o cérebro afeta o humor
O transtorno bipolar é caracterizado por oscilações de humor que alternam períodos de depressão e episódios de euforia ou irritabilidade, conhecidos como fases de mania ou hipomania.
“Durante episódios de mania, há frequentemente aumento da atividade em regiões límbicas, particularmente na amígdala e em áreas relacionadas ao processamento de recompensa, como o estriado ventral. Essas estruturas estão associadas à reatividade emocional, à motivação e à busca por recompensas“, esclarece Chaddad.
“Ao mesmo tempo, observa-se uma redução relativa da atividade em regiões do córtex pré-frontal, responsáveis pelo controle executivo e pela regulação das emoções. Esse desequilíbrio entre sistemas emocionais hiperativos e mecanismos de controle reduzidos pode contribuir para sintomas típicos da mania, como impulsividade, aumento de energia, grandiosidade e comportamento de risco. “
A dopamina, neurotransmissor ligado aos mecanismos de motivação, recompensa, energia e comportamento orientado a objetivos, tem papel importante na compreensão do transtorno bipolar. “Diversos estudos sugerem que episódios de mania estão associados a aumento da atividade dopaminérgica, o que pode contribuir para sintomas como euforia, aumento de energia, impulsividade e comportamento de risco”, pontua o neurocirurgião.
Outros neurotransmissores também participam desse processo. A serotonina, por exemplo, está relacionada à regulação do humor, da ansiedade e do sono, e alterações em seu funcionamento podem favorecer instabilidade emocional e sintomas depressivos. A noradrenalina, por sua vez, atua na atenção, na vigilância e na resposta ao estresse, podendo apresentar variações de acordo com os diferentes estados de humor.
Conexões cerebrais
Diversas condições neurológicas podem produzir sintomas semelhantes aos episódios de mania ou depressão observados no transtorno bipolar. Esses quadros são conhecidos como síndromes secundárias de mania ou depressão, nas quais alterações estruturais ou funcionais do cérebro afetam os mesmos circuitos neurais responsáveis pela regulação do humor.
Entre as causas mais comuns estão doenças cerebrovasculares, como o acidente vascular cerebral (AVC), especialmente quando as lesões atingem regiões frontais, temporais ou estruturas subcorticais. Nesses casos, podem surgir sintomas como euforia, irritabilidade, impulsividade ou, ao contrário, apatia e humor deprimido.
“Lesões nessas áreas podem alterar circuitos responsáveis pela regulação emocional e levar a sintomas como euforia, irritabilidade, impulsividade ou, ao contrário, apatia e humor deprimido. Em alguns casos, esses quadros são descritos como ‘mania vascular’ ou ‘depressão pós-AVC'”, destaca Feres Chaddad.
Outra condição associada a alterações de humor é a epilepsia do lobo temporal, na qual pacientes podem apresentar euforia, irritabilidade ou depressão entre as crises ou após episódios epilépticos, já que essa região do cérebro integra o sistema límbico, responsável pelo processamento das emoções. Doenças neurodegenerativas, como a demência frontotemporal, também podem provocar desinibição, impulsividade, euforia e mudanças marcantes de comportamento, sintomas que em alguns casos se assemelham a episódios maníacos devido ao comprometimento do córtex frontal e de suas conexões com áreas límbicas.
Alterações do humor ainda podem ocorrer em doenças inflamatórias ou infecciosas do sistema nervoso, como encefalites autoimunes ou infecciosas, nas quais a inflamação cerebral interfere na neurotransmissão e na atividade de circuitos emocionais, podendo gerar mania, depressão ou psicose. Tumores cerebrais, sobretudo quando localizados nas regiões frontal ou temporal, também podem causar mudanças de personalidade, instabilidade emocional e sintomas semelhantes aos do transtorno bipolar.
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Além disso, doenças metabólicas ou sistêmicas que afetam o cérebro, incluindo alterações hormonais e distúrbios metabólicos graves, podem desencadear quadros de agitação, euforia ou depressão. Em conjunto, essas observações reforçam que sintomas de mania ou depressão não estão necessariamente ligados a um único transtorno psiquiátrico, podendo surgir sempre que há disfunção nas redes cerebrais que regulam o humor, especialmente nos circuitos que conectam córtex pré-frontal, sistema límbico e estruturas subcorticais.
Importância do diagnóstico e do tratamento
Embora não tenha cura, a condição pode ser controlada com tratamento adequado, que geralmente envolve acompanhamento médico, uso de medicamentos e suporte psicológico.
A conscientização sobre o transtorno bipolar ganha destaque no Dia Mundial do Transtorno Bipolar, celebrado em 30/03, data que busca ampliar a informação sobre a doença e reduzir o estigma em torno dos transtornos mentais.




