Jamil Chade
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Nome de referência no jornalismo internacional, Jamil Chade é jornalista e escritor, com vasta experiência em coberturas globais. Como correspondente internacional, analisa as forças que regem a política mundial, com foco especial nas Nações Unidas e nos temas urgentes que definem as relações entre as grandes potências.

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Apartheid sanitário: Surto de Ebola expõe o abismo da saúde global

Embora o risco de uma nova pandemia esteja descartado no momento, a crise na África expõe um problema estrutural nos bastidores da diplomacia

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O diretor-geral da Organização Mundial da Saúde (OMS), Dr. Tedros Adhanom Ghebreyesus (FOTO: Reuters/Denis Balibouse)

O surto de Ebola na República Democrática do Congo e em Uganda, que já soma mais de 500 casos suspeitos e 130 mortes, foi classificado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como uma emergência sanitária internacional.

Embora o risco de uma nova pandemia esteja descartado no momento, a crise na África expõe um problema estrutural nos bastidores da diplomacia: o fracasso na criação de um tratado global unificado para futuras crises de saúde, anos após o fim da Covid-19.

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Durante coletiva de imprensa na sede da entidade, em Genebra, o diretor-geral Tedros Adhanom alertou para a rapidez da propagação do vírus na região. A diferença biológica entre o Ebola e o coronavírus, no entanto, evita que o patógeno se espalhe globalmente neste momento.

Como o Ebola incapacita o doente de forma fulminante, a disseminação por meio de viagens internacionais é drasticamente reduzida, o que contrasta com o período silencioso de incubação que marcou a disseminação da Covid-19.

Apesar de a emergência atual ser localizada, a situação evidencia uma falha na arquitetura de saúde global. Governos de todo o mundo ainda não conseguiram assinar um acordo definitivo sobre como lidar com o surgimento de novas doenças. O centro da divergência diplomática na OMS é a resistência dos países do chamado Sul Global contra as atuais regras do sistema internacional.

Na dinâmica sanitária em vigor, nações em desenvolvimento — onde frequentemente surgem novos patógenos — são pressionadas a compartilhar rapidamente amostras genéticas com a comunidade científica global.

No entanto, após fornecerem a matéria-prima para o desenvolvimento de testes e vacinas, esses mesmos países costumam ser relegados ao fim da fila na distribuição dos medicamentos por parte das nações mais ricas.

Diante desse cenário, governos de países emergentes passaram a endurecer as negociações em Genebra, recusando-se a manter o fornecimento de material genético sem garantias formais e legais de acesso igualitário a futuras vacinas.

O atual surto de Ebola serve, portanto, como um alerta: enquanto o vírus permanece contido no continente africano, a falta de um acordo internacional mantém o mundo vulnerável e sem diretrizes claras para o surgimento do próximo patógeno de rápida transmissão.

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