O surto de Ebola na República Democrática do Congo e em Uganda, que já soma mais de 500 casos suspeitos e 130 mortes, foi classificado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como uma emergência sanitária internacional.
Embora o risco de uma nova pandemia esteja descartado no momento, a crise na África expõe um problema estrutural nos bastidores da diplomacia: o fracasso na criação de um tratado global unificado para futuras crises de saúde, anos após o fim da Covid-19.
Durante coletiva de imprensa na sede da entidade, em Genebra, o diretor-geral Tedros Adhanom alertou para a rapidez da propagação do vírus na região. A diferença biológica entre o Ebola e o coronavírus, no entanto, evita que o patógeno se espalhe globalmente neste momento.
Como o Ebola incapacita o doente de forma fulminante, a disseminação por meio de viagens internacionais é drasticamente reduzida, o que contrasta com o período silencioso de incubação que marcou a disseminação da Covid-19.
Apesar de a emergência atual ser localizada, a situação evidencia uma falha na arquitetura de saúde global. Governos de todo o mundo ainda não conseguiram assinar um acordo definitivo sobre como lidar com o surgimento de novas doenças. O centro da divergência diplomática na OMS é a resistência dos países do chamado Sul Global contra as atuais regras do sistema internacional.
Na dinâmica sanitária em vigor, nações em desenvolvimento — onde frequentemente surgem novos patógenos — são pressionadas a compartilhar rapidamente amostras genéticas com a comunidade científica global.
No entanto, após fornecerem a matéria-prima para o desenvolvimento de testes e vacinas, esses mesmos países costumam ser relegados ao fim da fila na distribuição dos medicamentos por parte das nações mais ricas.
Diante desse cenário, governos de países emergentes passaram a endurecer as negociações em Genebra, recusando-se a manter o fornecimento de material genético sem garantias formais e legais de acesso igualitário a futuras vacinas.
O atual surto de Ebola serve, portanto, como um alerta: enquanto o vírus permanece contido no continente africano, a falta de um acordo internacional mantém o mundo vulnerável e sem diretrizes claras para o surgimento do próximo patógeno de rápida transmissão.