A pesquisa de boca de urna do Instituto Ipsos divulgada neste domingo (07/06), dia que marcou o segundo turno das eleições presidenciais no Peru, colocou Keiko Fujimori numericamente à frente. A candidata conservadora registrou 50,7% dos votos válidos, contra 49,3% de Roberto Sánchez. A diferença, porém, cabe dentro da margem de erro de 3 pontos percentuais, o que configura empate técnico.
O cenário era esperado. No primeiro turno, Keiko obteve 17,2% dos votos válidos, enquanto Sánchez chegou a 12,0%, ambos avançando entre 35 candidatos, número recorde na história eleitoral do país.
Quarta tentativa de Keiko
Esta é a quarta vez que Keiko Fujimori, filha do ex-presidente Alberto Fujimori, disputa o segundo turno presidencial. Ela perdeu em 2011, 2016 e 2021, sempre por margens estreitas. O partido que fundou em 2008, o Fuerza Popular, manteve influência no Congresso mesmo nos períodos em que ela ficou fora do poder.
Segundo o cientista político Lucas Berti, pesquisador do Observatório Político Sul-Americano, a candidata chega a esta disputa em posição diferente das anteriores. “Keiko perdeu as últimas três eleições (2011, 2016 e 2021) no segundo turno, por margens muito apertadas. E agora nessa eleição, em 2026, passa para o segundo turno com uma margem maior de votos. Alguns institutos dão vantagem para Keiko, outros para o Sánchez. O que indica uma coisa: a eleição será difícil e o resultado ainda está em aberto”, afirmou Berti em entrevista à GloboNews.
Crise de confiança nas instituições
O pleito ocorre em um país marcado por instabilidade política crônica. O Peru teve 9 presidentes em 10 anos, com mandatos de 5 anos que raramente foram cumpridos. Sobre o período, Berti destacou: “Nestes anos, a liderança que mais durou foi a de Dina Boluarte, que ficou no poder por quase três anos. Mas, ao desagradar a oposição liderada pela coalizão fujimorista de Keiko no Congresso, também caiu”.
Berti explicou o mecanismo que alimenta essa rotatividade. A Constituição peruana, em seu artigo 113, permite que parlamentares derrubem um presidente por “incapacidade moral ou física permanente”, uma cláusula que, na prática, funciona como ferramenta política. “É um sintoma de um processo de deslegitimação institucional que vem acontecendo nos últimos anos no país. E isso, na medida em que os presidentes eleitos não conseguem governar”, disse o pesquisador.
Os dados do Latinobarómetro ilustram o tamanho do problema. Apenas 10% dos peruanos afirmam estar satisfeitos com a democracia. “A credibilidade das instituições é baixíssima se olharmos os últimos 10 anos. E a desconfiança no Congresso passa de 90%, especialmente durante o processo que iria resultar na queda da ex-presidente Dina Boluarte, em 2025”, explicou Berti.
Berti também apontou a fragilidade do sistema partidário como fator estrutural. “Existe uma facilidade muito grande de criar partidos no Peru e são partidos chamados de ‘pouco institucionalizados’. São partidos que não têm raízes efetivas em uma sociedade, que não é um partido que entra para a disputa durante 20, 40 anos. Mas sim legendas que surgem e somem, assim como também não há uma fidelidade dos candidatos aos partidos, que trocam de coalizão também com facilidade”, avaliou.
Na prática, quem vencer herdará um país em que a maioria da população desconfia das próprias instituições que deverão sustentar o novo governo.




