Leão XIV pede perdão pelo papel da Igreja na escravidão

Papa Leão XIV admite que a Santa Sé legitimou a subjugação de infiéis e pede perdão em nome da Igreja

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(Foto: Yara Nardi/Reuters)

Leão XIV divulgou, na segunda-feira, a encíclica Magnifica Humanitas com um pedido formal de perdão pelo envolvimento histórico da Igreja Católica na legitimação da escravidão. É a primeira vez que um papa reconhece publicamente e pede desculpas pelo papel de antigos pontífices em autorizar a escravização de infiéis.

No documento, o papa escreveu: “É impossível não sentir profunda tristeza ao contemplar o imenso sofrimento e humilhação suportados por tantos, em contraste com sua dignidade incomensurável como pessoas infinitamente amadas pelo Senhor. Por isso, em nome da Igreja, peço sinceramente perdão.”

A encíclica cita diretamente a atuação da Santa Sé nos primeiros séculos da expansão europeia. Segundo o texto, “já no início da era moderna, a Sé Apostólica de Roma, respondendo a pedidos de soberanos, interveio diversas vezes para regular e legitimar formas de subjugação e, em certos casos, inclusive a escravização de ‘infiéis'”.

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Leão XIV classificou esse histórico como “uma ferida na memória cristã, da qual não podemos nos considerar desvinculados”.

Em 1452, o papa Nicolau V emitiu a bula Dum Diversas, que autorizava o rei de Portugal a conquistar e escravizar não cristãos. Três anos depois, em 1455, Nicolau V confirmou essas autorizações em nova bula, a Romanus Pontifex. Ao longo do século XV, os papas Calisto III, Sisto IV e Leão X renovaram essas permissões.

Essas bulas serviram de base para a chamada Doutrina da Descoberta — o conjunto de princípios jurídicos e religiosos que respaldou a colonização europeia das Américas e da África.

Passos anteriores e o que muda agora

A Igreja Católica já havia dado sinais de reconhecimento antes de Leão XIV. Em 1537, o papa Paulo III emitiu a bula Sublimis Deus, reafirmando que povos indígenas não deveriam ser escravizados. Em 1888, o papa Leão XIII foi o primeiro a condenar a escravidão de forma explícita — embora instituições da Igreja ainda possuíssem escravos antes dessa data.

Em 1985, o papa João Paulo II pediu perdão aos africanos pelo tráfico de escravizados durante visita aos Camarões. Em 1992, ele voltou ao tema ao visitar a Ilha de Gorée, no Senegal, chamando a escravidão de tragédia. Em 2023, o Vaticano repudiou formalmente a Doutrina da Descoberta — mas nunca anulou oficialmente as bulas papais do século XV.

O pedido de Leão XIV vai além desses gestos. Pela primeira vez, um papa assume diretamente a responsabilidade institucional da Igreja por ter autorizado a escravização.

Conexão pessoal do pontífice com o tema

Leão XIV é o primeiro papa nascido nos Estados Unidos. Uma pesquisa do historiador Henry Louis Gates Jr. revelou que 17 ancestrais americanos do pontífice eram negros — e que sua árvore genealógica inclui tanto pessoas escravizadas quanto proprietários de escravos.

No mês passado, antes de divulgar a encíclica, Leão XIV visitou Angola e rezou em um santuário localizado em área historicamente ligada ao tráfico de escravizados.

A Magnifica Humanitas também relaciona o tráfico transatlântico de escravizados a novas formas de escravidão digital, ampliando o escopo do documento para o presente.

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