Uma mistura de carmim e escarlate, com um toque de laranja — um novo tom, inspirado por uma senhora idosa na ópera de Barcelona, cuja elegância marcou o jovem Valentino Garavani.
A cor, introduzida no mundo da moda vários anos depois, em 1959, com um vestido cocktail tomara-que-caia de tule drapeado, carregou seu nome — “vermelho Valentino” — desde então, tornando-se também a assinatura do grupo italiano de moda que leva seu nome.
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“Eu acho que uma mulher vestida de vermelho é sempre maravilhosa, ela é a imagem perfeita de uma heroína”, escreveu Valentino no livro Rosso (Vermelho), lançado em 2022. Ele incluía ao menos um vestido vermelho em todas as suas coleções.
Valentino, um dos principais estilistas da Itália, morreu nesta segunda-feira em sua residência em Roma, anunciou sua fundação. Ele tinha 93 anos.
A causa da morte não foi informada de imediato.
“Eu amo a beleza”
Valentino figurava ao lado de Giorgio Armani e Karl Lagerfeld como o último de uma geração marcante de estilistas, de uma era anterior a moda se tornar uma indústria altamente comercial, conduzida tanto por financistas e executivos de marketing quanto pelos costureiros.
Ao atingir o topo da alta-costura, ele foi o primeiro italiano a desfilar nas exclusivas passarelas da haute couture de Paris.
Apaixonado por cinema, sonhava, quando jovem, vestir “as belas damas da tela de prata”, como ele as chamava, entre elas as estrelas de Hollywood dos anos 1950 Lana Turner e Judy Garland.
Valentino acabaria desenhando o vestido de noiva de Elizabeth Taylor e se tornaria o estilista preferido de inúmeras vencedoras do Oscar, incluindo Sharon Stone e Penélope Cruz.
Seus designs românticos, simples à primeira vista, eram repletos de detalhes intrincados. “Eu amo a beleza”, disse Valentino. “Não é culpa minha. E eu sei o que as mulheres querem: elas querem ser bonitas.”
O estilista, que também vestiu Jackie Kennedy, criou um império de moda com seu próprio nome antes de vendê-lo, pouco antes de sua aposentadoria, em 2008.
“Você precisa ter muita paciência”
Valentino era filho único, nascido em uma família abastada em Voghera, ao sul de Milão, onde seu pai administrava uma empresa de materiais elétricos.
Tendo começado a desenhar e a apreciar roupas de alta-costura desde jovem, estudou moda em Milão e Paris, onde trabalhou como aprendiz do estilista Jean Dessès. Ele voltou para casa em 1960, abrindo sua própria casa de moda no coração de Roma.
Naquele ano, Elizabeth Taylor escolheu um vestido branco de Valentino para a estreia do sucesso de bilheteria Spartacus.
Também em 1960, ele conheceu Giancarlo Giammetti em um café romano. Giammetti seria seu parceiro nos negócios e na vida.
“Compartilhar a vida com uma pessoa durante toda a sua existência — cada momento, alegria, dor, entusiasmo, decepção — é algo impossível de definir”, disse Valentino sobre ele.
Giammetti assumiu a parte administrativa do negócio, deixando a criatividade para o estilista.
“Conviver com Valentino como amigo, como amante e como funcionário é um pouco a mesma coisa: é preciso muita paciência”, disse Giammetti em “Valentino: O Último Imperador”, documentário que acompanhou os dois últimos anos da carreira do estilista.
Os tecidos georgette de Valentino, babados de chiffon e os ornamentos elaborados — incluindo a técnica exclusiva budellini, em que longas tiras de lã de ovelha são enroladas à mão em tubos, envoltas em seda e costuradas juntas — lhe renderam inúmeros prêmios, incluindo a mais alta distinção civil da França em 2006.
“A fama e a fortuna não o mudaram”, disse Giammetti à época. “Ele ainda é o mesmo garotinho que conheci 45 anos antes.”
Supersticioso e introvertido, Valentino adorava chocolate, esquiar e seus pugs. Ele disse ao Corriere em 2017 que tinha medo da morte.
“Momento perfeito para dizer Adeus”
Em 2007, ele impressionou Roma com celebrações luxuosas por suas décadas na moda — um evento de três dias que incluiu jantares, festas e exposições, com milhares de convidados voando de todo o mundo.
Meses depois, ele anunciou que deixaria de desenhar para sua empresa, que já não controlava, após vender o negócio quase uma década antes por cerca de 300 milhões de dólares.
“Decidi que este é o momento perfeito para dizer adieu ao mundo da moda”, disse ele. “Como dizem os ingleses, eu gostaria de deixar a festa enquanto ela ainda está cheia.”
Seu último desfile aconteceu em janeiro de 2008, em Paris, cidade que ele chamava de sua segunda casa e que, dizia, o havia ensinado a amar a moda e a vida.
A empresa que leva seu nome foi comprada pelo fundo catariano Mayhoola por 700 milhões de euros em 2012. O grupo francês Kering comprou 30% em 2023, com compromisso de adquirir a totalidade a partir de 2026, movimento depois adiado para 2028, no mínimo.
Valentino e Giammetti continuaram ativos no apoio às artes. Sua fundação inaugurou a galeria PM23 no centro de Roma em 2025, ao lado da sede da Valentino.
A exposição de abertura — “Horizontes/Vermelho” — focava justamente na cor mais associada a Valentino.
“O vermelho não é apenas uma cor”, disse Giammetti na ocasião. “É uma força simbólica e estética de extraordinário poder.”
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Por Reuters
