ONU: Quase 5 milhões de crianças morreram antes de completar 5 anos em 2024

Relatório divulgado nesta terça aponta que maior parte dos óbitos resultou de condições preveníveis ou que necessitavam tratamento de baixo custo

Por Redação TMC | Atualizado em
Mortalidade infantil é um dos problemas enfrentados por todo o mundo (Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil)

O Grupo Interagencial das Organizações Nações Unidas para Estimativas de Mortalidade Infantil registrou aproximadamente 4,9 milhões de óbitos de crianças com até cinco anos de idade em 2024 no mundo. A maior parte desses falecimentos resultou de causas evitáveis ou que necessitavam de tratamento de baixo custo. O relatório foi divulgado nesta terça-feira (17/03).

O levantamento do UN IGME recebe o título Níveis e Tendências da Mortalidade Infantil. O documento foi produzido em parceria com Banco Mundial, Organização Mundial da Saúde e Departamento de Assuntos Econômicos e Sociais da ONU.

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Aproximadamente 2,3 milhões dos óbitos ocorreram entre recém-nascidos. Esse número representa quase metade do total registrado. A prematuridade foi responsável por 36% das mortes neonatais. Complicações durante o parto causaram 21% dos falecimentos.

“Essas condições amplamente evitáveis destacam a urgência de investir em cuidados pré‑natais de qualidade, profissionais de saúde qualificados, cuidados para recém‑nascidos pequenos e doentes e serviços essenciais de saúde neonatal”, aponta o relatório.

África Subsaariana concentra 58% dos óbitos infantis

As mortes de crianças permanecem altamente concentradas geograficamente no planeta. A África Subsaariana respondeu por 58% de todos os óbitos de menores de cinco anos registrados em 2024. Na região, nove doenças infecciosas principais causaram 54% dos falecimentos.

Pneumonia, malária, diarreia, sepse, meningite, tuberculose, sarampo, HIV/AIDS e tétano compõem a lista das principais enfermidades infecciosas responsáveis pelas mortes. O Sul da Ásia concentrou 25% de todas as mortes de menores de cinco anos no período analisado.

Nessa região asiática, a mortalidade foi impulsionada principalmente por complicações no primeiro mês de vida. Parto prematuro, asfixia ou trauma no parto, anomalias congênitas e infecções neonatais representaram as principais causas de óbito entre os recém-nascidos.

Europa e América do Norte concentraram 9% das mortes infantis registradas em 2024. Austrália e Nova Zelândia apresentaram os menores índices, com apenas 6% do total de óbitos.

Países frágeis e afetados por conflitos continuam carregando uma parcela desproporcional dessas mortes. Crianças nascidas nessas situações têm quase três vezes mais chance de morrer antes dos cinco anos do que aquelas em outros contextos, segundo as Nações Unidas.

Ritmo de redução da mortalidade desacelera desde 2015

As mortes de crianças menores de cinco anos caíram em mais da metade globalmente desde 2000. O ritmo de redução da mortalidade infantil desacelerou mais de 60% desde 2015.

“Embora os níveis de mortalidade hoje sejam muito mais baixos do que em décadas passadas, a taxa atual de redução deixará milhões de recém-nascidos, crianças, adolescentes e jovens em risco de morte precoce e evitável.” Se as tendências atuais continuarem, estima-se que 27,3 milhões de crianças morrerão antes de completar cinco anos entre 2025 e 2030, sendo que quase 13 milhões dessas mortes ocorrerão no período neonatal, aponta a publicação.

As projeções indicam que essas mortes se concentrarão nas mesmas regiões e países onde as crianças já enfrentam riscos elevados atualmente. África Subsaariana e Sul da Ásia permanecerão como as áreas mais afetadas.

“Em um momento em que as crianças do mundo enfrentam desafios cumulativos, incluindo pobreza, conflitos, choques climáticos e sistemas de saúde frágeis, há uma necessidade urgente de ampliar e fortalecer os esforços para acabar com as mortes infantis evitáveis em todos os lugares”, reforça o documento da ONU.

Brasil reduz mortalidade, mas enfrenta desaceleração desde 2010

O Brasil registrou quedas expressivas na mortalidade infantil nas últimas três décadas. O país alcançou as menores taxas de mortalidade neonatal e abaixo dos cinco anos dos últimos 34 anos. O ritmo de redução desacelerou desde 2010.

Em 1990, a cada mil crianças nascidas no Brasil, 25 morriam ainda recém-nascidas, antes de completar 28 dias de vida. Em 2024, o número caiu para sete a cada mil.

A cada mil crianças que nasciam em 1990, 63 faleciam antes do quinto aniversário. Nos anos 2000, a taxa caiu para 34 a cada mil. Em 2024, o Brasil chegou a 14,2 mortes a cada mil nascidos vivos antes dos cinco anos de idade.

O Fundo das Nações Unidas para a Infância aponta que um conjunto de políticas adotadas nacionalmente tem diminuído as mortes preveníveis de crianças. O Programa Saúde da Família, o Programa de Agentes Comunitários de Saúde, a Política Nacional de Atenção Básica e a expansão da rede pública de saúde estão entre as políticas públicas citadas como fundamentais para este resultado.

Essas iniciativas ajudaram a promover a saúde de mães, bebês e crianças desde os anos 1990. As ações foram operacionalizadas com o apoio da sociedade brasileira e de organizações internacionais, como o próprio Unicef.

“Estamos falando de milhares de bebês e crianças que não sobreviveriam, e hoje podem crescer, se desenvolver com saúde e chegar até a vida adulta”, explica Luciana Phebo, chefe de Saúde e Nutrição do Unicef no Brasil. “E essa mudança foi possível porque o Brasil escolheu investir em políticas que funcionam, como a vacinação e o incentivo à amamentação. Agora, precisamos voltar a acelerar esses esforços, mantendo e ampliando os avanços históricos das últimas décadas e alcançando aqueles nos quais essas políticas ainda não chegam como deveriam”, enfatiza.

O Brasil também viu uma desaceleração na queda da mortalidade de crianças na última década. Entre 2000 e 2009, o país diminuía a mortalidade de recém-nascidos em 4,9% todos os anos. Entre 2010 e 2024, a redução passou a ser de 3,16% ao ano.

Violência lidera causas de morte entre meninos adolescentes no Brasil

Aproximadamente 2,1 milhões de crianças, adolescentes e jovens entre cinco e 24 anos morreram em 2024. Doenças infecciosas e lesões continuam sendo as principais causas de morte entre crianças mais novas. Na adolescência os riscos mudam.

Globalmente, o suicídio é a principal causa entre meninas de 15 a 19 anos. Os acidentes de trânsito são a principal causa entre os meninos na mesma faixa etária, segundo a organização.

No Brasil, em 2024, a violência foi responsável por quase metade das mortes de meninos de 15 a 19 anos. O percentual chegou a 49% dos óbitos nessa faixa etária. Doenças não transmissíveis ocuparam o segundo lugar, com 18% das mortes. Acidentes de trânsito foram a terceira causa mais comum, representando 14% das mortes de meninos adolescentes no país.

Entre meninas na mesma faixa etária, doenças não transmissíveis foram a principal causa de morte, com 37% dos óbitos. Doenças transmissíveis apareceram em segundo lugar, com 17% das mortes. A violência foi responsável por 12% dos óbitos de meninas de 15 a 19 anos. O suicídio representou 10% das mortes nessa faixa etária feminina.

Sessenta países podem não atingir metas dos ODS até 2030

Os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável pactuados por centenas de países estabelecem o fim das mortes infantis evitáveis globalmente. As metas determinam que todas as nações reduzam a taxa de mortalidade de menores de cinco anos para 25 mortes por mil nascidos vivos ou menos. A taxa de mortalidade neonatal deve ser reduzida para 12 mortes por mil nascidos vivos ou menos. Ambas as metas devem ser alcançadas até 2030.

Sessenta países podem não atingir o objetivo estabelecido pelos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável de reduzir mortes evitáveis de crianças menores de cinco anos até 2030. Outros 66 países enfrentam o risco de não alcançar a meta específica para mortalidade neonatal.

As estimativas mais recentes apresentadas no relatório sobre mortalidade infantil da Organização das Nações Unidas revelam que mais de 400 milhões de crianças menores de cinco anos vivem em países que estão em risco de não cumprir uma ou ambas as metas estabelecidas.

“Isso significa mais de 400 milhões de crianças menores de cinco anos vivendo em países que estão em risco de não cumprir uma ou ambas as metas. Se todos os países atingissem as metas dos ODS, estima-se que 8 milhões de crianças adicionais sobreviveriam até completar cinco anos entre 2025 e 2030”, em comparação com o cenário de manutenção das tendências atuais, afirma o documento.

O Fundo das Nações Unidas para a Infância reforça que as evidências apresentadas no relatório mostram que investimentos em saúde infantil estão entre as medidas de desenvolvimento com melhor custo efetivo. Intervenções comprovadas e de baixo custo, como vacinas, tratamento da desnutrição e profissionais de saúde qualificados na gestação, parto e pós-parto, geram alguns dos maiores retornos em saúde global.

Essas medidas aumentam a produtividade, fortalecem economias e reduzem gastos públicos futuros. Cada dólar investido na sobrevivência infantil pode gerar até 20 dólares em benefícios sociais e econômicos.

A ONU e seus organismos recomendam que governos, doadores e parceiros devem dar prioridade política e financeira para mobilizar recursos internos e ampliar o acesso a serviços de qualidade. As recomendações incluem priorizar regiões globais de maior risco, especialmente mães e crianças na África Subsaariana e no Sul da Ásia.

Os organismos internacionais destacam a necessidade de atenção especial a contextos frágeis e de conflito. As diretrizes também recomendam investimentos em sistemas de atenção primária à saúde para prevenir, diagnosticar e tratar as principais causas de morte entre crianças. Essas ações incluem o fortalecimento de agentes comunitários de saúde e assistência qualificada no parto.

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