Diferença de cerca de R$ 150 milhões nas receitas declaradas coloca o clube em situação delicada no processo de pagamento das dívidas
O Corinthians entrou num problema sério fora de campo. E não é exagero, não. A situação agora já passou daquela fase de discussão técnica sobre dívida, planilha e papelada. O que está em jogo, neste momento, é a confiança da Justiça nas informações que o clube vem apresentando.
O ponto central da história é o seguinte: dentro do Regime de Centralização de Execuções, que foi o modelo aprovado para o Corinthians ir pagando suas dívidas de forma organizada, o clube declarou uma receita de fevereiro muito menor do que a apontada pela perícia do processo. O Corinthians informou algo na casa de R$ 64 milhões. A análise técnica apontou mais de R$ 200 milhões. Ou seja: uma diferença de quase R$ 150 milhões.
E aí está o tamanho do problema. Não estamos falando de uma divergência pequena, de interpretação ou de detalhe contábil. Estamos falando de um valor muito alto, justamente num processo em que o clube precisa dizer quanto arrecadou para calcular quanto vai pagar aos credores. Se a receita declarada for menor do que a real, o valor repassado também fica menor. E isso, obviamente, muda tudo.
Foi por isso que a reação da Justiça chamou tanta atenção. O juiz mandou o Corinthians se explicar, mas não parou aí. Já deixou avisado que, se houver resistência na entrega de documentos ou se continuarem aparecendo inconsistências nas declarações, pode nomear um observador judicial ou até um interventor judicial. E aí o buraco é bem mais embaixo.
Na prática, o que isso quer dizer? Quer dizer que a Justiça está começando a olhar para o Corinthians com desconfiança. Um observador judicial seria alguém acompanhando de perto as movimentações e os documentos do clube. Já um interventor é um passo bem mais grave, porque representa uma interferência maior para garantir que o processo seja conduzido com lisura. Em resumo: o Corinthians entrou numa zona perigosa.
Vale lembrar que esse regime foi criado justamente para evitar uma bagunça geral na cobrança das dívidas. Existe um plano homologado, com percentuais mínimos das receitas que precisam ser destinados ao pagamento dos credores. Começa com 4% no primeiro ano, depois sobe. Então, quando aparece uma diferença tão grande assim no que foi declarado, o problema deixa de ser só financeiro. Vira também um problema de credibilidade.
E o momento em que isso aparece pesa ainda mais. A inconsistência surge justamente no começo da fase de pagamento. Não é qualquer hora. É na hora em que o processo começa a sair do discurso e entrar no dinheiro de verdade. Por isso o clima mudou. O que antes parecia uma discussão mais burocrática virou um alerta real.
Também não dá para ignorar o tamanho da conta. Os documentos do processo falam em algo perto de R$ 20 milhões nas contas do clube no fim de fevereiro, diante de uma dívida imediata de mais de R$ 200 milhões dentro do rateio, num cenário total que gira em torno de R$ 700 milhões em perdas prováveis. Ou seja: o cenário já era pesado. Agora ficou pior.
Daqui para frente, o Corinthians vai ter que explicar muito bem essa diferença. Se conseguir convencer a Justiça, o processo segue, ainda que arranhado. Se não conseguir, ou se continuar entregando informação torta ou incompleta, o risco de uma fiscalização mais dura aumenta muito. E aí o problema deixa de ser apenas dívida. Passa a ser também governança, transparência e autonomia do clube.