A violoncelista Fiorella Solares, fundadora da Ação Social pela Música, transformou mais de 16 mil crianças e adolescentes em verdadeiros “soldados do violino” em algumas das áreas mais violentas do Rio de Janeiro. Em entrevista ao programa EM3ATOS, da TMC, ela relembra histórias de alunos do Complexo do Alemão, da Penha, do Morro dos Macacos e da Babilônia que trocaram a sedução do tráfico pela emoção de tocar em palcos no Brasil e na Europa.
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Quando a caixa do violino vira escudo contra bala perdida
Entre as histórias que mais arrepiam, está a de Samuel, morador do Morro dos Macacos, que descia para um ensaio quando uma bala perdida atravessou a rua e entrou direto na caixa do violino que ele carregava nas costas. O instrumento se destruiu, porém o menino saiu ileso — a munição teria acertado o pulmão se não fosse o case. Para Fiorella, esse é o símbolo máximo de como a música pode literalmente salvar vidas em territórios onde tiro, sirene e baile funk fazem parte do som ambiente.
Enquanto isso, outros nomes mostram o caminho possível depois da partitura. Nathanael Paixão, também do Alemão, hoje estuda com bolsa no Conservatório Superior de Música de Toulouse, na França; David Nascimento, nascido na Babilônia, virou contrabaixista da Maria Gadú e braço direito artístico da ONG; e Mariana Pereira, violinista do Alemão, já rodou o mundo com a orquestra e lembra que o toque dos dedos na corda ainda a faz pensar em balas perdidas.
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No dia a dia, Fiorella explica que não caça “gênios de ouvido absoluto”, e sim crianças vulneráveis que precisam de rotina, afeto e convivência saudável. O projeto funciona, principalmente, no turno da tarde, justamente quando muitos adolescentes ficariam na rua, emendando dia e noite sem supervisão. Por isso, além das aulas coletivas de música, a ONG oferece reforço escolar, lanche e até letramento racial, já que cerca de 85% dos alunos são pretos ou pretas. Ali, eles aprendem a baixar o tom de voz, descobrem o valor do silêncio e entendem que, para tocar junto, é preciso ouvir o colega.
A relação com o poder paralelo, porém, nunca saiu do roteiro. Fiorella relembra a vez em que foi chamada para conversar com um chefe do tráfico em Campinho, ainda no início dos anos 2000: ele queria saber quantos meninos estavam no projeto e, ao ouvir que eram quase 150, avisou que não poderia passar disso para não “desfalcar” o negócio. Em outras comunidades, como Babilônia, Chapéu Mangueira e o próprio Morro dos Macacos, tiroteios constantes e disputas entre facções levaram ao fechamento de núcleos inteiros, mesmo com a população pedindo para a orquestra ficar.
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Mesmo falando de guerra, Fiorella também encontra espaço para leveza. No segundo ato do programa, ela sai das vielas cariocas para lembrar da infância na Guatemala, do período na Ópera do Palácio de Belas Artes, no México, e até ensina Rodrigo Alvarez a fazer um guacamole “raiz”, sem tomate aguado nem azeite “abrasileirado demais”. Entre uma risada e outra, ela revela ainda a fé na Virgem de Guadalupe, a quem atribui o milagre da gravidez da filha, e confessa que o projeto virou o grande sentido da sua vida adulta.
Agora, aos poucos, a fundadora prepara a própria saída da linha de frente. Fiorella quer deixar a direção executiva, buscar um novo gestor com perfil de terceiro setor, estruturar um fundo financeiro e consolidar uma sede digna para que a Ação Social pela Música exista muito depois dela. Enquanto governo, empresas e sociedade seguem discutindo quem faz o quê, ela continua recrutando, na marra e na doçura, mais jovens para esse “país paralelo da música” que insiste em nascer dentro das mesmas favelas onde o tráfico ainda tenta dar o tom.
