Transitar pelos corredores do poder público sendo a filha primogênita de um dos políticos mais influentes da história recente do país traz privilégios, mas cobra um preço alto em escrutínio e desconfiança. Em entrevista ao videocast Imprevista, a advogada, professora e ex-delegada Luciana Temer abriu os bastidores de sua relação com a política e o desafio de construir uma identidade desvinculada do ex-presidente Michel Temer.
Ao relembrar o período tenso em que assumiu a Secretaria de Assistência Social de São Paulo na gestão de Fernando Haddad (PT), no ápice do processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff, ela resumiu a pressão de carregar o sobrenome no meio do fogo cruzado e a necessidade de se provar tecnicamente:
“Eu entrei na secretaria porque eu era filha do Temer na visão das pessoas. Mas eu passei a estar ali apesar de ser filha do Temer”.
O ônus da faixa presidencial
Longe do glamour imaginado pelo senso comum, Luciana garante que a proximidade com a cadeira mais importante da República trouxe muito mais cobranças do que regalias para o núcleo íntimo familiar.
“Eu e minhas irmãs ficamos com o ônus de ser filhas do presidente. Eu nunca tive um passaporte diplomático, por exemplo. As pessoas ficavam na fila e falavam: ‘Mas você não tem passaporte diplomático?’. E por que eu teria?”, questiona.
Para ela, a maturidade trouxe a alforria política e profissional.
“Aos 56 anos eu finalmente começo a ser a Luciana Temer, não a Luciana Temer, vírgula, filha do presidente Michel Temer. Alguma hora a gente tinha que se livrar dessa vírgula”, celebra, ressaltando, no entanto, o profundo orgulho que sente da trajetória do pai. Segundo a professora, foi em casa que aprendeu a principal lição sobre a máquina pública e a vaidade humana.
“O meu pai é uma das poucas pessoas que eu conheço que soube se relacionar a vida inteira com o poder. Ele sempre entendeu que o poder era algo que ele ocupava transitoriamente. E foi assim que ele nos ensinou.”
Poder, silêncio e abuso
Essa compreensão cirúrgica sobre como o poder opera, atravessa diretamente o trabalho que Luciana realiza hoje à frente do Instituto Liberta, voltado ao enfrentamento da violência sexual contra crianças e adolescentes. Ela analisa que, assim como nos bastidores de Brasília as pessoas frequentemente personalizam os cargos como se fossem donas deles, a violência sexual se sustenta numa perversa assimetria de forças e posse.
“A violência sexual sempre implica em relações de poder, que podem ser mais violentas ou mais sedutoras”, explica a especialista.
A própria vivência de Luciana como vítima de estupro durante um assalto aos 27 anos, e de importunação sexual aos 13, a ajuda a dimensionar a barreira do silêncio que cerca o tema. Mesmo sendo advogada e ex-delegada na época do crime mais grave, ela não denunciou por constrangimento, sentimento que entende ser mil vezes pior nas crianças vítimas de abuso, que acabam manipuladas a sentir culpa por seus agressores.
“Não precisa ser um homem rico ou poderoso. A relação de poder se dá com o pai e a filha, com o tio, com o pastor, com o adulto e a criança. Existe uma cultura secular permissiva com o uso do corpo de crianças e de mulheres, uma autorização implícita.”
Privilégio e responsabilidade
Com passagens marcantes pela polícia civil (como titular de uma Delegacia de Defesa da Mulher em Osasco) e pela gestão pública, Luciana reconhece que o “chão de fábrica” destruiu a “bolha” de privilégios em que cresceu. Branca, vinda da elite paulistana e sem deficiências, ela reflete sobre o papel de quem está no topo da pirâmide e assiste à barbárie.
Para ela, a inércia não é opção. “A gente não tem que ter culpa social, a gente tem que ter responsabilidade social. Culpa e responsabilidade são coisas diferentes”, crava. “Você pode ter culpa e ficar presa na sua casa sem fazer nada. A responsabilidade social é o que te diz: ‘Eu tenho esse privilégio todo, o que eu faço a partir daí?'”, conclui a advogada, provando que, muito além do sobrenome herdado, seu legado vem sendo construído pelas batalhas que escolheu lutar.




