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Crime organizado infiltra instituições brasileiras e ameaça segurança pública, alerta Human Rights Watch

Relatório mundial da ONG recomenda reformulação das políticas de segurança com foco em investigações baseadas em inteligência

A Human Rights Watch (HRW) recomenda uma reformulação ampla das políticas de segurança pública brasileiras, com foco no enfrentamento às facções criminosas que se infiltram em instituições estatais. A recomendação integra o relatório mundial de 2026 da ONG, divulgado nesta quarta-feira (04/02), que examina a situação dos direitos humanos em mais de cem países.

O documento sugere que as autoridades brasileiras realizem “investigações aprofundadas e baseadas na inteligência” para identificar conexões entre criminosos e agentes públicos. A infiltração do crime organizado representa uma ameaça significativa à integridade das instituições, conforme avaliação da organização.

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Segurança pública como preocupação central

A segurança pública ocupa posição de destaque entre as preocupações dos brasileiros. Pesquisa da Ipsos-Ipec divulgada na segunda-feira (02/02) indica que 41% da população considera crime e violência os problemas mais urgentes do país.

O relatório surge em um momento de intensos debates sobre o tema, especialmente após a megaoperação policial contra o Comando Vermelho nos últimos meses de 2025, que resultou em 121 mortes no Rio de Janeiro, incluindo quatro policiais.

Dados do Ministério da Justiça atualizados na terça-feira (03/02) mostram que policiais foram responsáveis por 6.519 mortes em 2025, um aumento de 4,5% em comparação ao ano anterior. O documento também aponta que pessoas negras têm 3,5 vezes mais probabilidade de serem vítimas de violência em comparação com pessoas brancas.

Recomendações e críticas ao modelo atual

Entre as recomendações apresentadas pela ONG estão propostas baseadas em evidências científicas para desmantelar grupos criminosos, estratégias com ênfase em investigação policial, independência das perícias e melhor coordenação entre órgãos federais e estaduais no combate ao tráfico de armas e lavagem de dinheiro.

“Defendemos propostas sérias baseadas na ciência e em dados, que desmantelem os grupos criminosos e protejam os direitos de todos, tanto da população como dos policiais“, destaca o documento.

A HRW critica as estratégias atualmente empregadas pelas polícias brasileiras. A organização defende que o Brasil adote “propostas para proteger efetivamente os direitos das pessoas” em suas políticas de segurança.

“Por muito tempo, adotou-se um modelo de combate ao crime baseado em operações de caráter militar na qual policiais entram em comunidades de baixa renda atirando. Já sabemos que esse modelo não resolve o problema da violência e do crime organizado. Ele cria insegurança e coloca em risco a população e os próprios policiais“, observa a ONG em seu relatório.

Casos concretos de infiltração criminal

Investigações recentes expuseram a extensão da infiltração do Primeiro Comando da Capital (PCC) em diversos setores econômicos, incluindo transporte público, mercado de combustíveis e fundos de investimento na Faria Lima para lavagem de dinheiro. Esquemas para fraudar contratos municipais também foram identificados.

Um exemplo dessa infiltração ocorreu no final do ano passado, quando a Justiça Militar condenou 11 policiais militares por realizarem segurança ilegal para Antonio Vinícius Gritzbach, delator do PCC executado a tiros no Aeroporto de Guarulhos, em São Paulo. O episódio revelou o envolvimento de agentes tanto da Polícia Militar quanto da Polícia Civil com organizações criminosas.

A segurança pública promete ser uma “questão importante” nas próximas eleições presidenciais brasileiras, segundo avaliação da Human Rights Watch, especialmente considerando a posição do tema como principal preocupação da população nas pesquisas recentes.

O presidente Lula enviou ao Congresso Nacional duas propostas sobre o tema: a PEC da Segurança Pública, que amplia os poderes do governo federal na definição de diretrizes nacionais, e um projeto de lei que intensifica punições para membros de facções criminosas. Ambas continuam em discussão no Legislativo.

Outros temas abordados no relatório

No capítulo dedicado ao Brasil, o relatório da HRW menciona diversos outros temas relevantes, como a condenação do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) por “conspirar para permanecer no cargo após perder as eleições de 2022” e por outros crimes, além de fraudes no INSS que ultrapassam R$ 6 bilhões.

O documento observa que o governo Lula “adotou medidas para proteger o meio ambiente, mas manteve planos de expandir de forma massiva a produção de combustíveis fósseis“. Também cita investigações sobre emendas parlamentares por falta de transparência e a decisão do STF que estende a aplicação da lei de combate à violência doméstica a casais do mesmo sexo e mulheres trans.

O relatório destaca a criação de legislação para proteção de crianças em ambientes digitais, mencionando que o governo brasileiro solicitou à Meta a remoção de chatbots que imitavam crianças e mantinham diálogos de cunho sexual explícito. A situação do sistema prisional brasileiro também é abordada, com superlotação de 35% e mais de 674 mil pessoas encarceradas.

Em âmbito global, a HRW classifica quase 200 países em seis diferentes categorias: 35 “autocracias fechadas”, 51 “autocracias eleitorais”, 4 na categoria “autocracia zona cinzenta”, 13 como “democracia zona cinzenta”, 46 “democracias eleitorais” e 29 “democracias liberais”.

O documento identifica líderes como Vladimir Putin e Xi Jinping como ameaças à ordem mundial e destaca que 72% da população global vive atualmente sob regimes autoritários.

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