A crise entre a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro e o senador Flávio Bolsonaro expôs um novo racha dentro do núcleo político do ex-presidente Jair Bolsonaro e já é tratadacomo um fator com potencial de impacto na pré-campanha eleitoral de 2026.
O episódio ganhou dimensão pública após Michelle divulgar vídeos nas redes sociais em que afirma ter sido “humilhada” e “maltratada” por Flávio em uma conversa telefônica, além de relatar divergências políticas dentro do Partido Liberal (PL). Flávio nega ofensas e afirma que houve tentativa de contato e um mal-entendido entre as partes.
Segundo Michelle, o conflito teve início após disputas internas envolvendo articulações políticas no Ceará, onde o partido discutia alianças locais e possíveis palanques eleitorais. A ex-primeira-dama se posicionou contra a aproximação do PL com o ex-governador Ciro Gomes, lembrando críticas antigas feitas por ele a Jair Bolsonaro e à família. Já Flávio e aliados defenderam a estratégia de ampliação de alianças regionais, o que gerou divergências internas.
“Ciro Gomes foi o principal responsável pelo processo que levou à inelegibilidade do meu marido durante a pandemia. Numa live com outros esquerdistas, ele incentivou e conclamou as pessoas a chamarem o meu marido de genocida e pediu que repetissem isso o tempo todo. Ele chamou o meu marido de ladrão de galinhas, de corrupto, de burro, de jumento”, lembrou a ex-primeira-dama no vídeo publicado ontem.
Nos vídeos, Michelle afirma que, após seu desagravo à aliança, recebeu de Flávio a orientação para se afastar das decisões partidárias e relata que a conversa telefônica teria sido ríspida. Ela também diz que, desde então, os dois não mantêm diálogo direto, embora o senador ainda frequente sua residência. Michelle afirma ainda que decidiu se “recolher” e nega que condicione apoio político a pedidos de desculpas, reforçando que sua prioridade atual é a família e a situação do ex-presidente Jair Bolsonaro.
Flávio Bolsonaro, por sua vez, reagiu publicamente, negando qualquer intenção de ofensa. O senador afirmou que respeita Michelle e reconhece sua atuação no PL Mulher, além de dizer que tentou contato antes da divulgação do vídeo. Ele também afirmou que a família atravessa um momento difícil, mas que mantém disposição para o diálogo e para uma possível reconciliação.
“Sou casado há 16 anos, pai de duas filhas maravilhosas e nunca desrespeitei, maltratei ou humilhei uma mulher na minha vida. Jamais o faria com a esposa do meu próprio pai. Tenho 45 anos de idade, 24 anos de vida pública e sou reconhecido pelo meu equilíbrio, educação e respeito com todos, até com meus adversários políticos. Em nenhum momento ofendi ou tive a intenção de ofender a Michelle. Se o fiz em algum momento, mais uma vez, peço desculpas. Tenho por ela respeito e reconhecimento pelo trabalho no PL Mulher, pelo cuidado com meu pai e por tudo o que representa para o Brasil. Toda nossa família está passando por um momento muito difícil. E entendo a angústia da Michelle vendo meu pai, todos os dias, sofrendo com tamanha injustiça”, escreveu o senador no X.
Impacto político
Nos bastidores, o episódio é visto com preocupação por aliados do PL. A avaliação é de que a crise atinge um ponto sensível da estratégia da pré-campanha de Flávio, que busca ampliar sua base eleitoral para além do núcleo bolsonarista tradicional. Nesse contexto, Michelle é considerada um ativo político relevante, especialmente por sua forte influência entre mulheres e eleitores evangélicos.
Integrantes do partido avaliam que o distanciamento entre os dois pode enfraquecer a presença da campanha nesses segmentos e pressionar ajustes estratégicos, incluindo a discussão sobre uma possível composição de chapa com maior participação feminina. Também há preocupação de que o desgaste interno comprometa a narrativa de unidade do grupo político.
O conflito ocorre em um momento em que o campo bolsonarista tenta consolidar sua estratégia para 2026 e reduzir a vantagem de adversários em setores-chave do eleitorado. Nesse cenário, a crise entre Michelle e Flávio Bolsonaro deixa de ser apenas uma disputa familiar e passa a ser vista como um fator político com potencial de interferência no rumo da campanha.
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