O presidente da Argentina, Javier Milei, viaja ao Brasil nesta sexta-feira (24/7) para declarar apoio à candidatura presidencial do senador Flávio Bolsonaro durante uma convenção do Partido Liberal, na esperança de estender ao maior país da América Latina uma onda regional de vitórias eleitorais da direita.
O raro endosso de um chefe de Estado estrangeiro em uma convenção de lançamento de candidatura oferece à campanha de Flávio Bolsonaro um novo impulso após meses marcado por escândalos e disputas internacionais, com a perda de terreno para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva nas pesquisas.
A prestígio importada pode ajudar o senador a consolidar um campo político fragmentado. Outros partidos conservadores evitaram apoiar sua candidatura, enquanto seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, está em prisão domiciliar após ser condenado por tentativa de golpe de Estado.
“Ter o Milei na convenção ajuda a motivar, mobilizar essa base mais ideológica”, disse Silvio Cascione, diretor do Eurasia Group para o Brasil, destacando o alinhamento com recentes vitórias da direita na Colômbia, Peru e Chile.
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Desgaste interno
A campanha de Flávio Bolsonaro está pronta para mudanças após meses de dificuldades. Em maio, o senador confirmou reportagens segundo as quais o banqueiro Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master, posteriormente preso em uma grande investigação de fraude e suborno, financiou a produção de um filme sobre a carreira política de seu pai. A questão ganhou nova relevância esta semana, após a Polícia Federal receber autorização para investigar o financiamento.
No mês passado, uma disputa pública com sua madrasta Michelle Bolsonaro ameaçou sua imagem junto ao eleitorado feminino. Nesta semana, as novas tarifas dos Estados Unidos sobre produtos brasileiros voltaram a colocar em foco os resultados mistos dos esforços de sua família para buscar apoio do presidente norte-americano Donald Trump.
Pesquisas da Quaest mostram Bolsonaro agora 8 pontos percentuais segundo atrás de Lula em uma eventual virada, depois de ter registrado, em abril, uma pequena vantagem, ainda que dentro da margem de erro.
“A campanha de Flávio está sofrendo um desgaste interno”, disse o analista político Rafael Favetti. Jair Bolsonaro, que ainda não deu sinais de estar deixando uma política de forma definitiva, continua exercendo influência por meio de sua esposa, Michelle, e de outros aliados, defendendo a posição de Flávio como herdeiros naturais da marca Bolsonaro, acrescentou o analista.
Até o fim desta quinta-feira, a assessoria de imprensa do senador não havia respondido a um pedido de comentário.
Onda de direita
O apoio de Milei — cuja vitória na Argentina em 2023 deu início a uma sequência de quase uma dúzia de eleições latino-americanas vencidas por candidatos alinhados a Trump — relembra os ventos desenvolvidos mais amplos que ainda dão a Flávio uma chance na disputa.
Em toda a região, preocupações com a criminalidade e a estagnação econômica fortaleceram candidatos conservadores com uma agenda amplamente compartilhada de “ordem primeiro, mercado depois e uma relação mais próxima com Washington”, afirmou o JPMorgan em nota a clientes esta semana.
O líder argentino seguirá depois para o Peru, para o pelotão de Keiko Fujimori em 28 de julho; visitará também o Equador, onde se reunirá com o presidente conservador Daniel Noboa; e a Colômbia, para a posse de Abelardo de la Espriella, de direita, em 7 de agosto.
Até agora, a agenda de Flávio Bolsonaro tem muitos pontos em comum com as plataformas vitoriosas focadas em lei e ordem.
Na área de segurança pública, ele propôs reduzir a maioridade penal de 18 para 16 anos e construir novos presídios de segurança máxima, inspirados no modelo adotado pelo presidente de El Salvador, Nayib Bukele.
Na economia, promete cortes de impostos e privatizações para enxugar o Estado, ao mesmo tempo em que critica Lula pela inflação dos alimentos, fator que afetou a popularidade do presidente.
Mais ao centro
No entanto, a grande questão que paira sobre a campanha de Flávio Bolsonaro é como herdar o apoio fervoroso dado ao seu pai e, ao mesmo tempo, ampliar o seu apelo entre brasileiros cansados de uma década de política intensamente polarizada.
Em dezembro, após receber o apoio do pai, o que, na prática, deixou de lado o popular governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), o senador tentado se apresentar como uma figura mais moderada.
“Eu me considero, de verdade, um Bolsonaro mais centrado”, disse à Reuters em entrevista concedida em seu gabinete em Brasília, em dezembro.
Com viagens à Europa, ao Oriente Médio e a Washington, onde se reuniu com Trump e com o secretário de Estado Marco Rubio, ele conseguiu fortalecer a ideia de uma aliança conservadora global em ascensão.
Mas os tropeços domésticos deixaram potenciais aliados à margem e fortaleceram concorrentes conservadores que ainda aparecem com percentuais modestos nas pesquisas. Analistas continuam projetando um segundo turno disputado entre Lula e Flávio em outubro, mas, por enquanto, o impulso político mudou de lado e favoreceu o atual presidente. “Essas eleições dependem de Lula escorregar numa cascata de banana”, afirmou Favetti, de Brasília.




