A Marcha para Jesus voltou a expor uma velha característica da política: a tentativa de transformar a fé em instrumento de disputa por poder. De um lado, aliados de Jair Bolsonaro falam em “batalha espiritual”.
Do outro, Lula evita associar diretamente sua imagem ao evento, mas sabe que o voto evangélico segue decisivo para qualquer projeto eleitoral no Brasil.
Nada disso é novidade histórica. Religião e política caminham juntas desde as primeiras formas de organização humana. Muito antes dos Estados modernos, líderes espirituais já ocupavam posição central nas tribos e influenciavam guerras, decisões e lideranças.
Por isso, é natural que diferentes grupos políticos tentem associar Deus aos próprios interesses. A fé tem um componente emocional, identitário e passional — exatamente como a política. As pessoas raramente escolhem líderes apenas pela razão. Escolhem também por pertencimento, valores e emoção.
A separação entre religião e Estado surgiu justamente como tentativa de limitar esse poder. Mas esse equilíbrio nunca foi absoluto. Em períodos de polarização, a tendência é que a política volte a buscar legitimidade na fé.
Por isso, nos próximos meses, veremos mais políticos em marchas, cultos e eventos religiosos. Não por acaso. Em política, símbolos mobilizam tanto quanto propostas.