A Prefeitura de São Paulo modificará a organização dos megablocos que desfilam na Rua da Consolação após os tumultos ocorridos no domingo (08/02). O prefeito Ricardo Nunes (MDB) anunciou as mudanças na sexta-feira (13/02), destacando a proibição de paradas dos trios elétricos e a remoção de tapumes na Praça Roosevelt para facilitar o escoamento do público.
Os problemas aconteceram durante as apresentações do DJ Calvin Harris e do Acadêmicos do Baixo Augusta, quando foliões ficaram confinados em corredores estreitos formados por gradis e tapumes, sem possibilidade adequada de saída. A situação agravou-se com a paralisação dos trios elétricos por 1 hora e 40 minutos, concentrando o público em áreas específicas do percurso.
“O caminhão não pode parar pra quem tá lá embaixo não querer subir pra acompanhar o som [e causar tumulto]. Eles têm que saber que o caminhão vai chegar lá. Na semana passada o caminhão ficou 1 hora e 40 parado“, disse Nunes no camarote da Prefeitura no Anhembi.
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As alterações anunciadas serão aplicadas nos blocos programados para este fim de semana de carnaval e também para o pós-carnaval, incluindo o bloco “Pipoca da Rainha”, da cantora Daniela Mercury.
O prefeito de SP avaliou positivamente o evento, apesar dos problemas registrados. “A gente entende que o pré-carnaval foi um grande sucesso, não aconteceu nada grave, e cada vez mais foliões estão procurando São Paulo para curtir o carnaval de rua. É um carnaval que tem sido cada vez mais atraente. Se você pegar dez anos atrás, eram apenas cento e poucos blocos. Esse ano 627 blocos”, afirmou.
Nunes destacou ainda a necessidade de adaptação contínua da infraestrutura. “Cada ano a gente vai ter um número maior de pessoas e a gente vai ter que se adequar na infraestrutura, para acompanhar esse crescimento com a estrutura necessária”, explicou.
O prefeito também comentou sobre o processo de avaliação após os eventos: “Terminou o evento, a gente faz reunião de avaliação [para fazer ajustes], pra ver onde foram os problemas. E, no domingo, o grande problema foi a paralisação do caminhão. A questão das rotas de saída, de liberar a Praça Roosevelt. A gente vai sempre olhando [pra melhorar]. A gente não pode transformar o nosso carnaval de rua em questão de cancela e cobrança de ingresso. Ele é aberto. Então, a gente vai sempre estar se aprimorando para que as pessoas venham se divertir e a gente chegar no final e dizer: ‘não aconteceu nada de grave'”.
Gradis e segurança
Problemas semelhantes já foram registrados em outros locais da cidade, como na Avenida 23 de Maio, Avenida Tiradentes e no entorno do Parque do Ibirapuera, onde o mesmo modelo de organização com gradis foi adotado.
Uma nota técnica elaborada pela Polícia Militar do Estado de São Paulo indica que o uso de gradis em eventos de massa pode ser essencial para preservar vidas e manter a ordem pública, desde que siga critérios técnicos rigorosos de planejamento, instalação e operação.
Especialistas alertam que o confinamento de grandes multidões em espaços estreitos, sem rotas laterais de escape, cria um cenário de risco mesmo sem violência. Mariana Aldrigui, professora e pesquisadora de turismo urbano da Universidade de São Paulo (USP), afirma: “O que a gente viu foi a limitação do espaço com tapume e com gradis amarrados entre si e sem saídas alternativas. Isso foi o grande diferencial errado nesse momento”.
A especialista também alerta sobre os riscos relacionados à densidade de público: “Seis pessoas por metro quadrado já é uma situação extremamente desconfortável. Se uma pessoa derrapa, a gente passa a ter pisoteamento”.
Investigação e medidas adicionais
Após os episódios de tumulto, o Ministério Público de São Paulo instaurou um inquérito preliminar para apurar a superlotação e recomendou que a Prefeitura adote medidas de planejamento, controle e fiscalização no uso de áreas públicas durante o carnaval de 2026.
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A Prefeitura já revisou algumas medidas, como a retirada dos tapumes da Praça Roosevelt na quinta-feira (12), após recomendações do MP. Um dos fatores que contribuiu para os problemas no domingo foi o fechamento desta praça com tapumes, o que prejudicou a dispersão dos foliões ao final do circuito.
O modelo adotado em São Paulo é considerado mais restritivo que o de outras capitais conhecidas por grandes eventos carnavalescos, como Rio de Janeiro, Salvador, Recife e Belo Horizonte, onde os gradis são utilizados apenas para controlar o comércio autorizado e impedir a entrada de recipientes de vidro nos principais polos da festa.
