Após duas semanas de intensas negociações diplomáticas em Belém, a COP30 terminou com um documento final que frustrou parte dos ambientalistas. O grupo esperava que o texto trouxesse uma data-limite para a extinção dos combustíveis fósseis.
Mesmo mais tímida que o previsto, a proposta da presidência brasileira de organizar um Mutirão Global é considerada um marco importante para as discussões climáticas. O documento final estabelece a necessidade de reduzir em 43% as emissões de gases de efeito estufa até 2030, em comparação a 2019, e 60% até 2035.
Siga a TMC no WhatsApp e fique por dentro das últimas notícias do Brasil e no mundo
Outro compromisso relevante é a tentativa de ampliar o financiamento climático para US$ 1,3 trilhão ao ano até 2035, além de triplicar os desembolsos de fundos multilaterais, como o LDCF (Fundo para Países Menos Desenvolvidos).
Para cumprir as metas do Acordo de Paris, revisadas durante a COP30, o Ministro das Cidades, Jarder Filho, defendeu repetidamente a inserção dos municípios na estratégia climática global.
São Paulo cria estrutura para adaptação climática
No caminho da adaptação urbana, a Prefeitura de São Paulo criou, em 2021, a Secretaria Executiva de Mudanças Climáticas (SECLIMA). A pasta, comandada por José Renato Nalini, tem como base o PanClima SP, que estabelece metas como reduzir 50% das emissões até 2030 e alcançar a neutralidade de carbono até 2050.
Para isso, a cidade ampliou a frota de ônibus elétricos, que chegou a 1.000 veículos em circulação em 2025. São Paulo também pretende aumentar de 200 para 600 caminhões movidos a biometano até 2027.
Leia mais: Pacote de Belém é aprovado e COP30 abre “década da virada” contra crise climática
Nos últimos dois anos, a gestão municipal destinou R$ 40 bilhões para o orçamento climático para programas de mitigação e adaptação climática. No orçamento aprovado de R$ 136 bilhões para 2026, cerca de R$ 30 bilhões serão destinados a projetos entre as secretarias.
Além disso, alguns bairros da cidade cresceram sem ordem, o que causou na retira de árvores pelo própria expansão urbana. Segundo um mapeamento feito pela Secretária do Verde e Meio Ambiente em parceria com a SECLIMA, as regiões mais vulneráveis as altas temperaturas são esses bairros, como Sapopemba, Mooca e Itaquera.
“Não conseguimos encontrar em Sapopemba calçadas que tenham largura suficiente para receber árvores. Temos que trabalhar com as vagas verdes e os jardins de chuva, mas é um trabalho cauteloso, porque precisamos saber se as pessoas concordam em ceder o que era ocupado pelo estacionamento de um carro para receber árvores”, explica Nalini.
São Paulo e Santo André lideram iniciativas na região
Durante a COP30, Santo André — que integra o programa Cidades Verdes Resilientes — recebeu R$ 1,5 milhão do governo federal para implementar Soluções Baseadas na Natureza. Em parceria com o MDDF (Movimento de Defesa dos Direitos dos Moradores em Núcleos Habitacionais), o projeto prevê melhorias em bairros periféricos, como hortas comunitárias, arborização urbana, sistemas de captação e armazenamento de água da chuva e expansão do programa Moeda Verde
Santo André também integra o Mutirão Global Contra o Calor Extremo (Beat the Heat), do qual participam 185 cidades no Brasil e no mundo. O plano visa reduzir 68% das emissões e aumentar em 50% a eficiência de novos aparelhos de ar-condicionado.
Para lidar com o calor urbano, a cidade recebeu financiamento do Ministério das Cidades, em parceria com a agência alemã GIZ, para desenvolver florestas urbanas. Segundo o secretário de Meio Ambiente e Mudanças Climáticas de Santo André, Edinilson Ferreira, essa é uma região na fronteira entre o trecho da Mata Atlântica com a expansão urbana, sendo necessário um sensibilização da população.
“Essa é uma área crucial entre a zona urbana e a área de mananciais. É fundamental dialogar com a população sobre a importância de preservar o Parque do Pedroso”, afirma o secretário de santo andré.
Mesmo que a tentativa de manter a floresta em pé seja um desafio em superação em Santo André, a região ainda está sujeita as ondas de calor. Entre 2023 e 2024, foram cinco ondas de calor.
Leia mais: TMC lança marca em evento em São Paulo e promete “informar sem ser chato”, diz criador
Por isso, a secretaria instalou postos de hidratação pela cidade como forma de evitar problemas de saúde mais graves, como desmaios e desidratação.
“O calor extremo mata mais do que esses grandes eventos climáticos que a gente vê pelo mundo e não damos a importância para essa questão do quanto as cidades estão aquecendo. O calor extremo mata a gestante, a criança e o idoso”, explica.
Os desafios da adaptação climática na Grande São Paulo
O Mapeamento de Iniciativas Climáticas Urbanas no Brasil, elaborado pela UCCRN Latin America, mostra que Curitiba, São Paulo e Rio de Janeiro são as cidades que mais reúnem projetos de mitigação e adaptação.
Na Grande São Paulo, São Paulo e Santo André lideram o número de iniciativas em execução, com 24 e 11 projetos, respectivamente. Em seguida, Suzano aparece com dois projetos, enquanto Poá, Francisco Morato e Mogi das Cruzes registraram apenas um projeto.
“Não é apenas um município que dará a solução para as mudanças climáticas, a nossa região tem que pensar de forma conjunta, porque são problemas que são regionais”, explica Edinilson Ferreira, secretário de Meio Ambiente e Mudanças Climáticas de Santo André.
Há consenso científico de que 70% a 80% das emissões globais de carbono vêm das cidades. No Brasil, porém, o principal fator é o desmatamento ilegal.
“É muito recente a articulação de uma política climática dentro da pauta urbana. No Brasil, diferente de outros países, o urbano importa menos em termos de emissões porque carregamos um enorme peso do desmatamento”, explica Carol Heldt, professora da Escola da Cidade e coordenadora do LabCidade-USP.
O professor de ciências biológicas na USP, Giuliano Locosselli, compartilha do mesmo argumento Carol Heldt ao afirmar que cidades ainda estão no processo de adaptação.
“Nós podemos ver várias áreas muito quentes, como a zona leste de São Paulo, que não vegetação e não tem como se proteger de eventos extremos, a não ser usando o ar-condicionado, que não é uma forma democrática de proteger a população”, explica.
A forma mais efetiva, segundo Locosselli, é investir nas infraestruturas verdes, como parques e ruas arborizadas. Até 2025, a cidade de São Paulo chegou ao marco de 120 mil árvores plantadas, sendo que uma delas foi plantada simbolicamente no Pátio do Colégio.
Além disso, a Prefeitura apoia o projeto Formigas de Embaúba, que cria miniflorestas em escolas. Desde 2019, a iniciativa já plantou 15 mil árvores em 23 florestas urbanas.
“Houve esforços da prefeitura para adquirir e preservar áreas no entorno de parques, o que é positivo. Porém, em bairros centrais vemos o oposto, pequenos fragmentos, muitas vezes com espécies nativas e exóticas, são suprimidos para empreendimentos”, diz o biólogo.
O biólogo alerta que nem sempre as árvores jovens são suficientes para compensar a retirada da árvores maduras.
“Uma árvore grande pesa de 5 à 10 toneladas, metade é carbono. Ao cortá-la e enviar ao aterro, esse carbono volta à atmosfera em 2 anos. Mudas de 10 à 15 kg demoram décadas para atingir o mesmo estoque. Substituir árvores grandes por mudas cria déficit de carbono e piora a crise climática”, avalia Locosselli.
