O uso de inteligência artificial e da internet como fonte de informação sobre saúde tem crescido rapidamente, mas especialistas alertam para os riscos desse comportamento. Um estudo publicado na revista científica BMJ Open aponta que chatbots populares podem errar em cerca de 50% dos conselhos médicos oferecidos aos usuários.
O dado chama atenção em um cenário em que o ambiente digital já influencia diretamente decisões de saúde. Segundo levantamento do Datafolha, metade dos brasileiros busca informações sobre doenças e tratamentos online. Entre os jovens, esse número chega a dois terços.
Na prática, o problema não está apenas na existência dessas ferramentas, mas na forma como elas são utilizadas. Em entrevista à TMC, o clínico geral Paulo Camiz explica que o impacto da informação varia conforme a interpretação de cada pessoa.
“O que mais preocupa é o que a pessoa vai fazer com essa informação. Ela pode errar tanto para menos quanto para mais”, afirma.
Segundo o médico, há casos em que sintomas são minimizados após uma busca online, levando o paciente a adiar a procura por atendimento. Em outros, o efeito é inverso: a informação gera ansiedade, aumenta a procura por serviços de emergência e pode resultar em exames desnecessários.
“Às vezes a pessoa fica desesperada, tem uma crise de ansiedade e começa a induzir pedidos de exames que não seriam necessários”, diz.
Outro efeito direto desse comportamento é o avanço da automedicação, considerada uma das consequências mais preocupantes. Sem orientação adequada, pacientes recorrem a medicamentos por conta própria, muitas vezes sem conhecer riscos, doses ou contraindicações.
“Ninguém responde por isso quando dá errado. Quando dá certo, tudo bem. Mas e quando não dá? Você vai responsabilizar aquele site, ou aquele conteúdo que tava na internet?, questiona Camiz.
O especialista destaca ainda o uso indiscriminado de remédios comuns, como anti-inflamatórios vendidos sem prescrição, que podem trazer impactos significativos à saúde.
“Esses medicamentos, que parecem inofensivos, muitas vezes fazem mais estrago do que um antibiótico”, alerta.
Apesar dos riscos, o médico reconhece que a busca por informação na internet também reflete dificuldades estruturais, como o acesso limitado a profissionais de saúde.
“Muitas vezes, a pessoa recorre à internet porque não consegue ter acesso a um médico de confiança. Então, isso acaba sendo uma alternativa”, explica.
Diante desse cenário, a recomendação é que o uso da internet seja feito com cautela. Avaliar a procedência das informações, verificar a formação de quem produz o conteúdo e desconfiar de promessas “milagrosas” ou excessivamente alarmistas são medidas essenciais.
“A gente precisa ter muito cuidado com informações que prometem resultados rápidos ou que causam pânico. Esses extremos são sempre suspeitos”, afirma.
Para especialistas, a tecnologia pode até funcionar como ponto de partida, mas não substitui a avaliação individualizada de um profissional de saúde, etapa considerada essencial para diagnósticos e tratamentos seguros.
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