Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), as doenças neurológicas representam atualmente a principal causa de incapacidade no mundo e afetam mais de 3,4 bilhões de pessoas. Embora possam atingir pessoas de todas as idades, o risco de doenças neurodegenerativas, como Alzheimer e Parkinson, aumenta com o envelhecimento, o que torna a população idosa especialmente vulnerável.
Diante desse cenário, a campanha do Dia Mundial do Cérebro 2026, promovida pela World Federation of Neurology (WFN), adota como tema “Brain Health: Access for All” (“Saúde cerebral: acesso para todos”) e reforça a importância da prevenção, do diagnóstico precoce e da ampliação do acesso aos cuidados neurológicos.
Apesar dos avanços da ciência, a própria OMS alerta que o acesso ao diagnóstico, aos tratamentos, à reabilitação e aos serviços de neurologia permanece desigual em diversas regiões do mundo, sobretudo em países de baixa e média renda. O envelhecimento da população torna esse desafio ainda mais urgente para os sistemas de saúde.
No Brasil, essa transformação já aparece nos indicadores demográficos. Dados do IBGE mostram que a proporção de brasileiros com 60 anos ou mais passou de 8,7% da população, em 2000, para 15,6% em 2023. Atualmente, o país reúne cerca de 33 milhões de idosos, e a projeção é que esse grupo represente 37,8% da população até 2070.
O envelhecimento da população também deve ampliar a incidência das doenças neurodegenerativas. O Relatório Nacional sobre a Demência estima que aproximadamente 2,71 milhões de brasileiros com 60 anos ou mais convivam com algum tipo de demência. Mantido o ritmo atual, esse número poderá ultrapassar 5,6 milhões até 2050.
Na avaliação de Patrícia Lessa, diretora pedagógica do Supera Estimulação Cognitiva, esse cenário exige que o cuidado com a saúde cognitiva deixe de ser associado apenas ao tratamento das doenças neurológicas e passe a ocupar espaço nas estratégias de promoção da saúde.
“Precisamos deixar de falar apenas sobre tratamento e passar a discutir prevenção, promoção da saúde cerebral e cuidado ao longo de toda a vida.”
Segundo a especialista, embora a atenção à cognição ainda seja frequentemente associada ao envelhecimento, as evidências científicas mostram que ela é construída continuamente ao longo da vida.
“Aprendizagem, interação social, atividade física, alimentação equilibrada, sono de qualidade e desafios intelectuais contribuem para fortalecer a chamada reserva cognitiva”, capacidade do cérebro de desenvolver mecanismos que ajudam a enfrentar os efeitos naturais do envelhecimento e reduzem a vulnerabilidade ao declínio funcional.
As recomendações também são defendidas por organismos internacionais e encontram respaldo em pesquisas desenvolvidas no Brasil. Uma dessas evidências vem de um estudo conduzido por pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) e do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP, que investigou os efeitos de um programa estruturado de estimulação cognitiva em idosos saudáveis.
Publicado na revista científica International Psychogeriatrics, o estudo acompanhou 207 idosos saudáveis durante 24 meses. Os participantes foram divididos em dois grupos: um realizou um programa estruturado de estimulação cognitiva; o outro não participou da intervenção.
Ao final do acompanhamento, os idosos submetidos ao programa apresentaram melhora aproximada de 45% na memória, redução de 60% nas queixas cognitivas e diminuição de 29% dos sintomas depressivos. Os pesquisadores também observaram avanços em funções executivas, como planejamento, organização, raciocínio e tomada de decisões.
Para a gerontóloga Dra. Thaís Bento, doutora em Neurologia pela USP e uma das autoras do estudo, as evidências mostram que a estimulação cognitiva pode integrar estratégias preventivas de promoção da saúde.
“Através deste estudo realizado com pessoas idosas saudáveis voluntárias, reforçamos que a estimulação cognitiva pode ser iniciada em qualquer fase da vida, antes mesmo do surgimento de sinais de declínio cognitivo.”
Segundo a pesquisadora, a capacidade de adaptação do cérebro permanece ativa ao longo da vida e responde continuamente aos estímulos proporcionados por novas experiências e aprendizagens.
“O cérebro precisa de novidades. Sempre que aprendemos algo diferente, estimulamos áreas responsáveis pelo raciocínio, pela memória e pela atenção. Esse processo fortalece as conexões entre os neurônios e contribui para manter a mente ativa ao longo dos anos.”
Além dos ganhos observados no desempenho cognitivo, a pesquisa identificou benefícios relacionados ao convívio social e ao bem-estar emocional. As atividades em grupo favoreceram a interação entre os participantes e estimularam diferentes habilidades simultaneamente, fatores associados à preservação da autonomia durante o envelhecimento.
Para a pesquisadora, os resultados também ajudam a desconstruir a ideia de que envelhecer significa, inevitavelmente, perder independência ou capacidade de aprendizagem.
“Ainda existe a ideia de que envelhecer significa ficar frágil, esquecer tudo ou perder autonomia. Mas a ciência mostra exatamente o contrário. Muitas pessoas envelhecem preservando suas funções cognitivas porque permanecem aprendendo, socializando e mantendo o cérebro em constante atividade.”
De acordo com Thaís, em um país que envelhece rapidamente, investir na saúde cognitiva desde as primeiras fases da vida tende a ganhar importância tanto para a qualidade de vida da população quanto para a sustentabilidade dos sistemas de saúde.
“As evidências reforçam que esse cuidado deve começar antes do aparecimento dos primeiros sintomas. Não é preciso esperar que apareçam falhas importantes de memória para começar a cuidar do cérebro. Quanto mais cedo esse estímulo fizer parte da rotina, maiores são as chances de preservar as funções cognitivas durante o envelhecimento”, conclui Thaís Bento.
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