Quilombos apostam no turismo para preservar cultura afro-brasileira e reforçar antirracismo

Comunidades preservam a cultura e os modos e os saberes de comunidades negras tradicionais

Por Felipe Mendes | Atualizado em
Visita ao Quilombo Cafundó, com imagens de plantas e roupas típicas
O Quilombo Cafundó é especialista na agricultura orgânica e na língua cupópia. (Foto: Reprodução/Instagram)

Referências na preservação da cultura afro-brasileira, os quilombos estão se tornando também fonte de renda para as comunidades através do turismo. Programas de imersão permitem ao visitante conhecer a gastronomia, a agricultura e até línguas próprias faladas nestes redutos, que seguem como símbolo de resistência, agora na luta antirracista

Em São Paulo, o Vale do Ribeira e o litoral sul do estado concentram alguns dos principais quilombos que vêm apostando no chamado afroturismo. Na cidade de Salto de Pirapora, o Quilombo Cafundó se tornou famoso por ter um idioma próprio, a cupópia.

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Acostumada a receber estudiosos e linguistas, a comunidade agora recebe turistas, interessados neste conhecimento. “As pessoas querem conhecer como se deu a formação desse linguajar dos quilombolas, o dia a dia deles, a cultura gastronômica, e o envolvimento deles com esse espaço territorial que é a terra”, explica a professora Solange Barbosa.

Licenciada em História, ela também se tornou agente de turismo e desenvolve há 19 anos a Rota da Liberdade, que atravessa São Paulo com histórias e cultura afro-brasileira. O Quilombo da Fazenda, em Ubatuba, o Quilombo do Jaó, em Itapeva, e o Quilombo dos Silvérios, em Itararé, também contam com programas de visitas turísticas.

“O afroturismo é uma grande ferramenta para o desenvolvimento econômico das comunidades, da população negra”, diz a professora, que faz um alerta. “A riqueza gerada por esse desenvolvimento social e econômico precisa vir para as mãos negras. Já vemos uma tentativa de apropriação do afroturismo, como aconteceu com o carnaval e a cultura negra em geral.”

Símbolo de resistência

Historicamente, os quilombos são sinônimos de resistência. Na África, a palavra de origem bantu significava espaço fortificado, de treinamento. Com o passar do tempo, ganhou novos significados. A Constituição de 1988 definiu o quilombo como espaço cultural onde se preserva a cultura e os modos e os saberes de comunidades negras tradicionais, na interpretação da professora. 

“São os responsáveis pela preservação de uma grande parte da história dos povos africanos que vieram para o Brasil”, explica Solange. 

Com o afroturismo, os quilombos se tornaram também “ferramentas de letramento racial e de luta antirracista”. “As pessoas perguntam se as visitas são apenas para negros. Perguntam se todo mundo pode. E eu digo ‘sim, pode ir todo mundo’”, destaca Solange.

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Para a especialista, o conhecimento compartilhado nestas comunidades derrubam até velhos preconceitos, relacionando favelas a quilombos.

“Isso é um problema muito grande para o estudo do quilombo, porque não dá a dimensão desse espaço como espaço de preservação de memória e de cultura, e também essa tentativa de desqualificação das comunidades que vivem nos quilombos. É uma tentativa de apagamento e desqualificação da cultura afro-brasileira, da cultura de matriz africana.”

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