Já contabilizamos mais de 60 mortos. Ainda há desaparecidos. Os números podem facilmente ser confundidos com números de outras grandes tragédias. Eles se juntam e misturam na nossa memória como se fossem um único evento que nunca acaba.
As imagens parecem repetidas. São registros de Ubá e de Juiz de Fora – mas poderiam ser qualquer outra cidade. As encostas cedendo, a terra desmoronando. Casas desmontando como se fossem feitas de papel. Vídeos de gritos e pedidos de socorro, resgates dramáticos. As histórias que vem depois disso. Os que conseguiram se salvar. Os que não conseguiram.
A tragédia ganha nomes, rostos. E pouco tempo depois, a vida continua – até a próxima grande catástrofe.
Acompanhe tudo o que acontece no Brasil e no mundo: siga a TMC no WhatsApp
A sensação de impotência, angústia e tristeza ao ver tudo isso não é nada para quem vê de longe – exatamente porque não nos tange. Não é a nossa vida indo embora, e nem a de parentes ou amigos. Não fomos nós que sobrevivemos por um triz – mas podemos vir a ser. Pode não só vir a nos tanger como também pode nos atravessar. É uma questão de tempo.
Um levantamento do Serviço Geológico do Brasil mostra que quase 5 milhões de pessoas moram em área de risco no país. Os principais riscos são deslizamentos de terra e alagamentos e os estados mais afetados são Minas Gerais, Santa Catarina e Rio Grande do Sul.
É terrível escrever isso, mas as próximas mortes vão acontecer. É questão de tempo.
E enquanto não lidarmos com o terrível, com o trágico, como uma questão de tempo, vamos continuar aceitando o argumento de que “uma chuva desta magnitude é difícil de prever”. É isso que os governantes repetem. Porque é assim que os especialistas analisam.
Mas há uma diferença. Uma coisa é um especialista em meteorologia afirmar que aquela situação específica, naquele dia, naquele momento, era imprevisível. Outra, muito diferente, é um prefeito, um governador, um presidente usarem essa constatação técnica para anular a própria responsabilidade.
Os dados existem para que, a partir deles, caminhos sejam traçados. Ignorar os dados também é escolher um caminho – o da negligência.
Juiz de Fora tem cerca de 130 mil pessoas que moram em áreas de risco. A cidade está em quarto lugar no ranking nacional de risco geológico. O padrão das chuvas está mudando. Um estudo com dados de 1991 a 2023 mostrou que os desastres climáticos no Brasil aumentaram 460% em relação aos anos 1990. Em 2024, o Cemaden registrou 3.620 alertas para eventos extremos.
Há muitos números, recortes, uma variedade imensa de dados. E todos apontam para o mesmo cenário. Estamos vivendo um novo normal.
Não existe solução fácil. Mas ignorar os dados é escolher repetir a tragédia.
O ideal, neste aspecto, seria retirar todas as pessoas das áreas de risco. Isso envolve não só investir em estrutura e construção de moradias, mas convencer pessoas a deixar as suas vidas para trás porque “algo pode acontecer”.
Já cobri muitas tragédias de chuvas e posso garantir que, inocentemente, as pessoas sempre acham que não vai acontecer com elas. Outras sabem da iminência da destruição, mas aquela casa é tudo que têm e não querem sair.
Esse trabalho de convencimento é infinitamente mais complexo do que arrumar dinheiro e levantar novas moradias.
Mas é para isso que precisamos do poder público. Para que viabilizem soluções para problemas complexos – e não usar as feridas, que nunca fecham, como promessa eleitoral.
Porque o mapa das áreas de risco existe. Os alertas existem. Os relatórios existem. A ciência não engana. A desculpa, sim.
