- O campo pesa, claro. Sempre pesa. Mas as palavras também contam
- E, no Corinthians, às vezes contam tanto quanto a bola.
- O calendário brasileiro exige rodagem, exige alternativa, exige banco competitivo.
Se um dia Dorival Júnior deixar o comando do Corinthians, provavelmente a explicação não estará apenas dentro de campo. Metade da conta será futebol. A outra metade, comunicação. Mais especificamente, o jeito direto com que o treinador se posiciona nas entrevistas coletivas.
Dorival é um técnico experiente, rodado, vencedor. Já passou por praticamente todos os grandes centros do futebol brasileiro e tem um perfil conhecido: fala o que pensa. Não costuma dourar a pílula. E, do ponto de vista de quem acompanha futebol há anos, ele está certo em muitas das colocações que faz.
O problema é que esse tipo de sinceridade nem sempre combina com a lógica política que existe dentro dos clubes. Técnico, dirigente, conselheiro e torcida raramente falam a mesma língua. E quando um treinador começa a expor publicamente questões estruturais, o desconforto aparece.
Em várias coletivas recentes, Dorival deixou claro que o elenco precisa de mais opções. Não foi uma crítica isolada. Ele já tocou nesse assunto mais de uma vez. Voltou ao tema novamente na entrevista após o jogo na Vila Belmiro, quando falou da necessidade de reforços e de maior profundidade no grupo.
Na prática, o treinador apenas verbalizou algo que muitos enxergam: o Corinthians ainda está em processo de montagem de elenco. O calendário brasileiro exige rodagem, exige alternativa, exige banco competitivo. Dorival tem batido nessa tecla.
Só que quando o técnico fala isso publicamente, a mensagem não chega apenas ao torcedor. Ela também chega à diretoria, ao departamento financeiro e ao ambiente político do clube. E aí começa o ruído.
Historicamente, treinadores que falam demais sobre estrutura, elenco ou limitações acabam entrando em rota de colisão com dirigentes. Não necessariamente porque estejam errados, mas porque passam a tratar publicamente de assuntos que muitos preferem discutir apenas internamente.
Por isso, a leitura é simples: se em algum momento o trabalho de Dorival vier a ser interrompido, dificilmente será apenas por resultado. O campo pesa, claro. Sempre pesa. Mas as palavras também contam. E, no Corinthians, às vezes contam tanto quanto a bola.