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Especialista em inovação e economia criativa. Em sua coluna, explora as transformações da creator economy, novos formatos de mídia e as estratégias comerciais que estão moldando o futuro da comunicação digital.

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YouTube não é apenas distribuição. É uma lógica diferente de mídia

A contratação de uma ex-profissional da plataforma pela Globo para reforçar a GE TV reacende a discussão sobre como a televisão tenta operar em um ambiente moldado por formatos nativos do digital

Por Eduardo Mendes | Atualizado em

Há um equívoco na notícia abaixo.

Por pouco mais de quatro anos, Mariana de Felippes ocupou a função de gerente de parcerias esportivas no YouTube, e não era a “principal executiva” da plataforma conforme noticiou Gabriel Vaquer, na Folha. Uma rápida checagem no LinkedIn seria suficiente para entregar a informação correta.

Se foi proposital ou não o direcionamento dado pela fonte ( o jornalista foi o primeiro a publicar o furo), havia um recado cheio de intenções dado pela Globo ao mercado via GE TV. É uma sinalização clara de sua inclinação à plataforma que agora é responsável por 22% dos 38,3% da audiência de vídeo online registrada em fevereiro no Brasil, segundo dados da Fifty5Blue, antiga Ibope Kantar.

A nova contratação é justificada para reforçar a “estratégia multiplataforma” em meio à necessidade de “adaptação ao consumo fragmentado do esporte.”

“Multiplataforma” merece entrar definitivamente no hall dos jargões mais quentes do mercado, desses que parecem ter saído diretamente de um deck da McKinsey. É uma releitura da ironia recorrente e imperdível do Unofficial Partner, que costuma chamar ligas disruptivas de Sport By McKinsey.

No mês passado, trouxe aqui uma discussão mais ampla sobre o que a Globo chama de “estratégia multiplataforma”. Na prática, trata-se de uma aposta fortemente apoiada em um modelo de esporte gratuito, massivo e de narrativa informal, consolidado pela CazéTV como um case global.

A crítica era: desde seu lançamento em setembro, a GE TV tem operado mais como uma réplica fiel do disruptor do que como uma proposta própria de mídia legada adaptada ao ambiente digital.

A chegada de Felippes sinaliza uma correção de rota? A turma da Globo tem acompanhado os artigos por aqui. O alerta já havia sido dado.

Dados do Futebol na TV registraram, ontem, às 21h05, a audiência do sorteio da fase de grupos da Libertadores no YouTube: CazéTV (357 mil) e GE TV (231 mil) lideraram disparadamente, comprovando que o formato ao vivo de esportes está bem consolidado. Mas qual será o próximo passo?

Neste contexto, vale observar outros movimentos do mercado.

O canal Goat contratou recentemente o narrador Odinei Ribeiro, ex-Globo, e tirou da TNT Sports a repórter Bianca Molina. São decisões que reforçam o equilíbrio que o canal vem construindo entre formatos nativos do YouTube e uma proposta editorial bem definida.

Evan Shapiro, ao analisar a colaboração entre BBC e YouTube, defende que a abordagem mais inteligente é tratar a plataforma como uma camada adicional de distribuição para conteúdo que já foi produzido.

Uma programação com custos irrecuperáveis encontra novos públicos e gera receita incremental. Portanto, não se trata de criar uma nova linha de produção que exige capital adicional.

Na semana passada, Alan Wolk levantou outra provocação ao perguntar se o YouTube está vencendo ou se a TV está simplesmente perdendo relevância.

Para ele, o YouTube é o que a televisão parece na era da mídia feudal. Uma combinação de conteúdo de criadores, conteúdo de estúdios, um serviço de TV por assinatura virtual, um serviço de música, um aplicativo de esportes e muito mais.

Os outros players, com a exceção parcial da Netflix, continuam sendo exemplos da velha ordem tentando encontrar seu lugar na nova.

Volto a um ponto que tenho repetido por aqui.

A construção de audiência não começa mais em plataformas proprietárias. Mirar o fluxo real do público tornou-se tão central quanto, no passado, desenhar uma grade de programação.

Como observou recentemente o podcast People vs Algorithms, o YouTube, antes visto como o outsider do conteúdo gerado pelo usuário na mídia, acabou se tornando o exemplo mais claro de inovação construída de baixo para cima.

Ao desenvolver o algoritmo, a infraestrutura publicitária e a experiência de consumo doméstico mais eficientes, a plataforma redefiniu o que significa ser uma empresa de mídia.

Repito: o desafio real é saber se a televisão está preparada para seguir o público, em vez de se apegar a definições que já não explicam o consumo.

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