Encontro de Flávio e Eduardo Bolsonaro com o presidente americano, vendido como demonstração de prestígio internacional, pode acabar fortalecendo o discurso de Lula e gerar desgaste ao principal pré-candidato do PL
Os Estados Unidos concluíram nesta última segunda-feira (1º) uma investigação que acusa o governo brasileiro de adotar práticas que “oneram ou restringem” o comércio com empresas norte-americanas. Como resultado, o Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) propôs a aplicação de tarifas de 25% sobre parte das mercadorias brasileiras exportadas para o mercado americano.
O governo brasileiro considera a medida uma decisão de caráter político, especialmente porque negociações entre os dois países ainda estavam em andamento.
Sob os aspectos político, econômico e diplomático, a iniciativa representa uma notícia negativa para o Brasil. Do ponto de vista eleitoral, porém, o presidente Lula recebeu um presente inesperado do núcleo bolsonarista — mais especificamente dos filhos 01 e 03 de Jair Bolsonaro.
Na semana passada, Flávio e Eduardo Bolsonaro estiveram na Casa Branca para uma reunião relâmpago com Donald Trump. Entre os temas levados ao presidente norte-americano estavam o reconhecimento do PCC e do Comando Vermelho como organizações terroristas e outras pautas de interesse do grupo político ligado ao ex-presidente brasileiro.
O encontro também buscava reforçar a imagem de proximidade entre a família Bolsonaro e Trump, além de criar uma agenda positiva para Flávio em meio ao desgaste provocado pelos áudios envolvendo o ex-banqueiro do Banco Master, Daniel Vorcaro.
À primeira vista, a operação parecia bem-sucedida. As atenções da imprensa e das redes sociais se voltaram para a reunião. A fotografia dos filhos de Jair Bolsonaro ao lado de Trump no Salão Oval dominou o debate político durante dias.
Na mesma semana, os Estados Unidos anunciaram a classificação das principais facções criminosas brasileiras como organizações terroristas, ampliando ainda mais a repercussão do encontro. Parecia o roteiro perfeito para o clã.
Mas o encontro envelheceu mal — e bem rápido. O anuncio do “novo tarifaço” americano sobre o Brasil vem na mesma esteira de ações pós reunião e agora fica difícil para os Bolsonaro segmentarem os temas na opinião pública.
A tendência é que Lula mantenha o tom adotado na nota divulgada nos últimos dias, segundo a qual Flávio Bolsonaro teria atuado contra os interesses nacionais ao buscar apoio político junto ao governo americano em temas sensíveis para o Brasil.
Além disso, embora a nova política tarifária preveja uma série de exceções, os setores produtivos eventualmente afetados tendem a se alinhar ao discurso de Lula diante da medida. Isso cria mais um desafio para a comunicação da pré-campanha de Flávio Bolsonaro.
A estratégia do senador e de seus aliados tem sido sustentar que, durante a reunião, foi solicitado a Trump que não adotasse medidas prejudiciais às empresas brasileiras. Trata-se, porém, de uma narrativa de difícil sustentação – no português claro: “não cola”.
O encontro ainda está fresco na memória da opinião pública — em grande parte pela divulgação promovida pelos próprios envolvidos — e o histórico recente de Eduardo Bolsonaro junto ao governo americano contribui para aumentar a resistência a esse argumento.
Na prática, a articulação realizada nos Estados Unidos e a foto produzida para demonstrar prestígio internacional acabam se transformando em um potencial problema político para o principal pré-candidato do PL.
Para complicar ainda mais a situação do núcleo bolsonarista, mesmo que a medida seja revertida ou sequer venha a ser implementada integralmente, a condução do caso passará necessariamente pelo governo brasileiro. Isso significa que qualquer eventual solução será atribuída ao Palácio do Planalto.
Do ponto de vista eleitoral, o cenário desenhado é relativamente simples: se as tarifas forem mantidas, Flávio Bolsonaro terá de conviver com o desgaste político decorrente do episódio; se forem revertidas, o governo Lula ficará com os créditos pela solução – afinal, trata-se de uma negociação comercial entre os dois países, e não a temas tangenciais.
Em qualquer um dos cenários, os próximos dias prometem ser particularmente difíceis para o senador fluminense.