Estudo da USP mapeia 1.383 genes ligados à depressão e abre caminho para exames

Cientistas identificaram 73 genes com expressão alterada em glóbulos brancos que participam de processos neurológicos e inflamatórios, reforçando caráter sistêmico do transtorno depressivo maior

Por Redação TMC | Atualizado em
"A depressão é um fenômeno sistêmico, ou seja, que se espalha pelo corpo inteiro", explica o professor responsável pelo projeto professor Otávio Cabral-Marques (Crédito: Unsplash/K. Mitch Hodge)

Cientistas da Faculdade de Medicina da USP (Universidade de São Paulo) mapearam genes desregulados simultaneamente em neurônios e glóbulos brancos de pacientes com transtorno depressivo maior. O estudo foi publicado na revista Scientific Reports nesta terça-feira (01/04). A pesquisa examinou informações de bancos públicos dos Estados Unidos, Alemanha e França.

A equipe coordenada pelo professor Otávio Cabral-Marques analisou informações de mais de 3 mil amostras sanguíneas. Anny Silva Adri desenvolveu a investigação como parte de seu doutorado. Conforme informações da Agência Fapesp, a fundação apoiou o trabalho por meio de quatro projetos.

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Os pesquisadores identificaram 1.383 genes com expressão alterada nos glóbulos brancos de pessoas com depressão. Desse total, 73 genes participam tradicionalmente de processos relacionados à conexão entre neurônios. Esses genes atuam na transmissão de neurotransmissores e na formação de conexões neurais.

Nos glóbulos brancos, esses mesmos 73 genes participam de vias imunológicas e inflamatórias distribuídas pelo organismo. A análise identificou 18 genes capazes de distinguir de forma consistente pacientes com depressão de indivíduos sem o transtorno.

“Mapeamos essa rede de genes que dá a dinâmica de interação entre os sistemas imunológico e nervoso. A depressão é um fenômeno sistêmico, ou seja, que se espalha pelo corpo inteiro”, explica Cabral-Marques. “E o sistema imune é um dos sistemas que descentralizam essa condição, espalhando-a para além do sistema nervoso central. Até por isso, não é raro que uma pessoa com depressão possa apresentar outras manifestações, como inflamações cutâneas ou perda de apetite, por exemplo.”

Cada pessoa possui um genoma único com a sequência completa do material genético do organismo. A diferença entre um neurônio e um leucócito está na ativação genética. Os genes são “ligados” ou “desligados” conforme a função, condição ou ambiente em que a célula está inserida.

O grupo de pesquisadores tem investigado a relação entre sistema imunológico e neurológico. Em estudo recente, a equipe demonstrou em modelo animal o papel de um único gene (PAX-6) como preditor de depressão. Esse gene está presente tanto em neurônios quanto em glóbulos brancos.

“O que temos visto nesses estudos é que existe uma conexão muito grande entre o sistema imunológico e neurológico criada por essa rede de genes que estamos investigando”, avalia Cabral-Marques. “Tudo está muito ligado e a divisão entre esses sistemas é apenas para fins didáticos.”

O mapeamento genético evidenciou forte associação entre a depressão e diversas outras condições de saúde. Os genes associados ao transtorno depressivo apresentam ligação com bipolaridade, psicoses, ansiedade, hipertensão e doenças arteriais. O trabalho também apontou conexões com doenças inflamatórias, incluindo psoríase, manifestações gastrointestinais, disfunção erétil e complicações relacionadas ao coronavírus.

“A análise sugere que esses mesmos genes estão envolvidos em comorbidades vasculares e inflamatórias comuns à depressão”, conta Adri. “A depressão não está localizada apenas no cérebro, mas afeta o organismo de forma integrada e molecular.”

“A inflamação e a desregulação molecular não afetam apenas o cérebro, mas se espalham por diferentes órgãos e sistemas, ampliando o impacto da doença e sugerindo novas abordagens para diagnóstico e tratamento”, afirma a pesquisadora.

“É um estudo de ciência de dados que ainda precisa ser confirmado biologicamente, mas ele abre possibilidades interessantes para o desenvolvimento futuro de um painel para identificar genes presentes em células do sistema imune circulantes no sangue e que estão envolvidos com a depressão”, diz Adri. “Como o sangue é mais acessível que o tecido cerebral, os genes identificados servem como indicadores biológicos da presença e severidade da depressão.”

A descoberta possibilita o desenvolvimento futuro de exames de sangue capazes de identificar o tipo e grau de depressão. A conexão entre inflamação periférica (no sangue) e sintomas centrais (no cérebro) abre caminho para tratamentos que abordem a inflamação para aliviar sintomas depressivos.

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