Ícaro caiu porque chegou perto demais do sol. Essa é a versão mais conhecida do mito grego: a história de um jovem que ignorou os avisos do pai, teve as asas de cera derretidas e despencou no mar. Uma metáfora da arrogância humana. Um aviso sobre o perigo de querer ir longe demais. No entanto, pode existir outra forma de olhar para essa história.
Ícaro tem uma característica essencialmente humana: a dificuldade de aceitar limites impostos como definitivos. Uma característica infantil, talvez. Mas também profundamente humana. A vontade de tentar. A curiosidade. O risco. O impulso de descobrir o que existe depois da linha que alguém disse que era o fim.
Essa mesma curiosidade nos permite construir e destruir. Sobre destruição, não é preciso elaborar muito: basta abrir qualquer jornal. Guerras, intolerância, violência, disputas por poder. Sobre construção, vimos um exemplo ontem. Eu me emocionei assistindo à transmissão da missão Artemis, da NASA. Ao ver as imagens da cápsula Orion passando pelo lado oculto da Lua, me peguei pensando justamente nisso.
Foi um avanço importantíssimo do ponto de vista tecnológico. Também foi um movimento estratégico dos Estados Unidos na nova corrida espacial. E foi algo ainda mais raro: um daqueles momentos que lembram do que a humanidade é capaz quando decide construir em vez de destruir.
As críticas à corrida espacial existem – e são legítimas. Ir à Lua não resolve a fome. Não acaba com guerras. Não reduz desigualdades. E é verdade: os bilhões investidos em exploração espacial poderiam financiar políticas públicas urgentes aqui embaixo. Mas também é verdade que, nos mais de 50 anos em que a corrida espacial deixou de ser prioridade, nós também não resolvemos esses problemas.
O mundo continuou convivendo com guerras por território, religião e poder – exatamente os mesmos motivos de séculos atrás. Avançamos muito em tecnologia. E muito pouco naquilo que já deveríamos ter aprendido a superar.
Se a Lua não resolve os nossos problemas, não impede bombas, não reduz a intolerância e não melhora automaticamente a vida de quem enfrenta dificuldades concretas todos os dias, ela pode servir para outra coisa: perspectiva.
Quando vemos a terra do espaço – pequena, silenciosa, uma bola suspensa, isolada na escuridão – fica mais difícil sustentar a ideia de que as nossas disputas são tão importantes quanto parece aqui de dentro. Nós somos muito pequenos. Somos um ponto azul pálido num universo que não tem qualquer obrigação de fazer sentido para nós.
O universo existe, sempre existiu (não sabemos desde quando, então vamos admitir que existe desde sempre) e seguirá existindo independentemente do que façamos com o nosso lugar nele. Vejam o tamanho da nossa insignificância. Podemos acabar com o nosso planeta, não fará diferença ao universo.
E, ao mesmo tempo, somos tudo o que sabemos sobre esse universo. Toda a consciência conhecida. Toda a capacidade de perguntar. Toda a tentativa de entender o que existe. Por enquanto, pelo menos, somos o único lugar onde o universo consegue olhar para si mesmo.
Que contraste. Isso, sim, grandioso. Nós existimos em um paradoxo: somos insignificantes diante do todo. E, por enquanto, somos o único lugar onde o universo tenta entender a si mesmo.