Um estudo recente conduzido por pesquisadores da Universidade da Austrália do Sul e publicado no British Journal of Sports Medicine aponta que a prática regular de atividade física pode ser até 1,5 vezes mais eficaz do que medicamentos ou psicoterapia no tratamento da depressão em alguns casos. A pesquisa reacende o debate sobre o papel do exercício físico na saúde mental, e os limites dessa abordagem.
De acordo com o psiquiatra Luiz Scocca, a atividade física tem, de fato, um impacto significativo no tratamento da doença, especialmente em quadros leves a moderados.
“Em alguns casos, chega a um resultado bem parecido com apenas o uso da medicação, porque atua diretamente nos circuitos cerebrais”, explica.
Apesar disso, o especialista faz um alerta importante: o exercício não substitui o acompanhamento médico, principalmente em casos mais graves.
“É um excelente e indispensável complemento, mas não substitui o psiquiatra”, reforça.
A interpretação equivocada dos estudos é, inclusive, uma preocupação entre profissionais da área. Segundo Scocca, há o risco de que as pessoas reduzam a complexidade da depressão a uma simples falta de esforço.
“A depressão não é preguiça ou falha de caráter. É uma doença complexa, que exige um tratamento completo”, afirma.
Ele destaca que o cuidado ideal pode envolver medicação, psicoterapia e outros suportes, além da atividade física.
No cérebro, os efeitos do exercício ajudam a explicar os benefícios. A prática regular aumenta a liberação de substâncias como serotonina, dopamina e endorfina, associadas ao bem-estar e à regulação do humor. Além disso, melhora a chamada neuroplasticidade, a capacidade do cérebro de se adaptar, e contribui para a redução da inflamação e do estresse, tanto biológico quanto psicológico.
Mesmo com os benefícios comprovados, começar pode ser um desafio para quem enfrenta a falta de energia, um sintoma comum da depressão. Nesses casos, a recomendação é abandonar a ideia de grandes metas.
“O mais importante é começar pequeno. Pode ser uma caminhada de cinco ou dez minutos. O foco deve ser a regularidade, não a intensidade”, orienta o psiquiatra.
Ele também ressalta que, em quadros mais graves, a dificuldade para realizar qualquer atividade pode indicar a necessidade urgente de acompanhamento profissional.
No Brasil, os altos índices de depressão estão ligados a uma combinação de fatores. Entre eles, o aumento do estresse, mudanças na rotina após a pandemia, excesso de trabalho, especialmente no modelo home office, desigualdades sociais e dificuldade de acesso ao tratamento adequado. Ao mesmo tempo, o maior debate sobre saúde mental tem ampliado os diagnósticos no país.
Para Scocca, a atividade física deve ser vista como uma peça-chave dentro desse cenário.
“Um dos maiores auxiliares no tratamento dos quadros mentais está na atividade cardiovascular. Sem ela, é muito difícil tratar. Quando a pessoa precisa interromper, muitas vezes há piora significativa do quadro”, relata.
A conclusão dos especialistas é clara: o exercício físico pode ser um poderoso aliado contra a depressão, mas deve fazer parte de uma abordagem mais ampla e integrada de cuidado com a saúde mental.
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