Mestre em Multimeios pela Unicamp, a brasileira Célia Maria Cassiano, de 67 anos, morreu por suicídio assistido na Suíça, na quarta-feira (15/04). Ela havia recebido em 2025 o diagnóstico de uma doença neurodegenerativa incurável que afeta o segundo neurônio motor. O procedimento é legal no país europeu, mas permanece proibido no Brasil. Veja o vídeo abaixo.
A doença compromete progressivamente os movimentos e a fala, mas preserva a consciência. O corpo começa a falhar enquanto a percepção do que está acontecendo permanece intacta. “Eu não queria ficar totalmente dependente, presa numa cama, ligada a aparelhos”, disse Célia em vídeo gravado para as redes sociais.
Nos últimos meses, a perda de autonomia passou a organizar a rotina. “Hoje eu preciso de três pessoas para me levarem ao banheiro: uma me levanta, uma tira minha roupa, outra me ajuda a sentar”, relatou.”Eu estou no limite da minha dignidade”, afirmou. Veja o vídeo abaixo.
O procedimento
Célia entrou em um quarto, deitou-se em uma cama e bebeu, por conta própria, a substância amarga. Entre três e cinco minutos depois, adormeceu. A morte foi comunicada às autoridades locais.
A polícia suíça foi até o local para verificar a documentação. Confirmou que houve consentimento livre. Atestou a legalidade do procedimento. O caso foi considerado regular. Seguiu para os trâmites legais, incluindo perícia e cremação.
A Suíça é o único país que aceita estrangeiros não residentes no modelo de suicídio assistido. O modelo suíço permite apenas a forma autoadministrada do procedimento.
Nos dias que antecederam a morte, Célia fez turismo. Visitou museus. Caminhou pela cidade. Foi a restaurantes. “Eu fiquei tranquila porque sabia que não ia ficar presa numa cama. Eu quero uma morte sem dor”, declarou.
Custos e critérios
O custo do processo fica em torno de R$ 65 mil (11 mil francos suíços). O valor não inclui viagem e hospedagem.
O acesso ao procedimento exige o cumprimento de uma série de critérios médicos e legais. O processo começa ainda no país de origem, com a definição da data. Ao chegar à Suíça, o paciente deve permanecer por um período mínimo antes do procedimento. Passa por avaliações médicas e psiquiátricas independentes. No dia marcado, o medicamento é prescrito. É retirado em farmácia, com identificação formal.
No caso de Célia, o processo significou meses de preparação. Houve reunião de documentos, laudos médicos e traduções. Foi necessário cumprir exigências formais das organizações responsáveis pelo procedimento. Em alguns momentos, segundo ela, foi preciso omitir o objetivo final da viagem para conseguir avançar nas etapas burocráticas. “Eu sou uma privilegiada, porque isso é muito caro”, disse Célia.
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Célia Maria Cassiano construiu a vida em torno da universidade e das artes. Mestre em Multimeios pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), formou-se também em Ciências Sociais. Seguiu na área acadêmica, entre aulas, orientação de alunos e gestão de cursos de Comunicação.
“Eu decidi lutar pelo meu direito de ter uma morte digna”, declarou.
No Brasil, não há legislação que autorize qualquer forma de morte assistida. O conceito engloba tanto o suicídio assistido — quando a própria pessoa administra a substância — quanto a eutanásia, em que um profissional realiza o procedimento. Nenhuma das duas práticas é permitida.




