A Polícia Federal (PF) afirmou, em relatório enviado ao Supremo Tribunal Federal (STF), que o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, mantinha uma relação de “tratamento privilegiado” e “diferenciado” com o senador Ciro Nogueira (PP-PI), incluindo o custeio de viagens internacionais, hospedagens em hotéis de luxo e outras despesas pessoais.
O documento, que teve o sigilo retirado nesta terça-feira (16) pelo ministro André Mendonça, integra a investigação sobre o chamado caso Master e serviu de base para decisões tomadas no inquérito.
Segundo a PF, a relação entre Vorcaro e o senador ia além da amizade e configurava uma “relação funcional e instrumental”, na qual o empresário ofereceria vantagens financeiras ao parlamentar enquanto recebia apoio para interesses ligados ao Banco Master.
Entre os benefícios identificados pelos investigadores estão pagamentos mensais que, segundo a PF, chegariam a valores entre R$ 300 mil e R$ 500 mil, participação societária em empresa e o custeio de viagens nacionais e internacionais.
Viagens e despesas de luxo
A investigação aponta que Vorcaro bancou diversas viagens de Ciro Nogueira em 2024 e 2025, incluindo deslocamentos em aeronaves particulares, hospedagens de alto padrão, refeições em restaurantes sofisticados e despesas relacionadas a uma viagem de esqui nos Alpes franceses.
De acordo com a PF, os gastos identificados incluem:
- R$ 10,1 mil em um restaurante em Paris, em abril de 2024;
- R$ 245,1 mil em seis diárias no hotel Park Hyatt New York, em Nova York, em maio de 2024;
- R$ 91,2 mil em hospedagem no Four Seasons Ritz Lisboa, em junho de 2024;
- R$ 122,1 mil em restaurantes na estação de esqui de Courchevel, na França, em janeiro de 2025.
A corporação calcula que os benefícios econômicos diretos relacionados às viagens internacionais somaram R$ 468,7 mil, sem considerar o uso de jatos particulares. Segundo os investigadores, em uma estimativa conservadora, o valor total dos gastos atribuídos a Vorcaro em favor do senador ultrapassa R$ 500 mil.
A chamada “Emenda Master”
Outro ponto destacado pela PF é a atuação de Ciro Nogueira na apresentação da Emenda nº 11 à PEC 65/2023, conhecida nos bastidores do mercado financeiro como “Emenda Master”.
A proposta previa mudanças no funcionamento do Fundo Garantidor de Créditos (FGC), mecanismo que protege depositantes e investidores em caso de quebra de instituições financeiras.
Segundo a investigação, o texto teria sido elaborado por integrantes ligados ao Banco Master e posteriormente apresentado pelo senador no Congresso. Para a PF, a medida tinha potencial para beneficiar os negócios da instituição financeira.
Suspeita de lavagem de dinheiro
O relatório também aponta indícios de estruturas que teriam sido utilizadas para ocultar a origem e a destinação de recursos. De acordo com os investigadores, empresas ligadas ao núcleo familiar dos envolvidos, movimentações entre companhias do mesmo grupo e o uso de dinheiro em espécie são elementos que podem indicar a prática de lavagem de dinheiro.
A PF afirma que ainda apura o papel de cada envolvido e sustenta que as estruturas identificadas teriam como possível beneficiário final o senador.
Dinheiro transportado em avião
Os investigadores também analisam o relato do piloto Mauro Mattosinho sobre o transporte de R$ 350 mil em espécie em um avião, em agosto de 2024. Segundo o depoimento, um dos passageiros teria mencionado o nome de Ciro Nogueira durante o desembarque em Brasília.
A própria PF ressalta, contudo, que essa informação ainda depende de comprovação material e segue sob investigação.
Defesa nega irregularidades
Quando foi alvo de uma operação da Polícia Federal relacionada ao caso, em maio deste ano, a defesa de Ciro Nogueira afirmou que o senador está à disposição das autoridades para prestar esclarecimentos.
Os advogados sustentam que o parlamentar não participou de atividades ilícitas e rejeitam qualquer suspeita de irregularidade em sua atuação no Senado. A defesa também questiona medidas investigativas baseadas em trocas de mensagens e afirma que eventuais excessos deverão ser analisados pelas instâncias superiores da Justiça.




