A expectativa de que o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), avançasse na tramitação da PEC que prevê o fim da escala 6×1 não se confirmou. Apesar da pressão de parlamentares e da mobilização de setores da base governista, o senador não designou relator nem definiu o rito de tramitação da proposta, mantendo o texto em compasso de espera.
Enquanto posterga uma decisão sobre a matéria, Alcolumbre concentrou esforços na interlocução com o Palácio do Planalto. Ao longo do dia, recebeu na residência oficial os ministros Bruno Moretti, da Secretaria de Orçamento Federal, Dario Durigan, da Fazenda, e José Guimarães, da Secretaria de Relações Institucionais.
Na pauta, a preocupação do governo com projetos de forte impacto fiscal que avançam no Congresso Nacional. O presidente do Senado também se reuniu com o líder do governo no Congresso, senador Randolfe Rodrigues (PT-AP).
Nos bastidores, a avaliação é que Alcolumbre aguarda uma conversa direta com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O encontro serviria para reduzir tensões acumuladas nas últimas semanas, especialmente após divergências envolvendo indicações para tribunais superiores, além de alinhar a agenda de votações consideradas prioritárias pelo governo.
A estratégia de adiar as definições sobre a PEC do fim da escala 6×1 não parece casual. Ao evitar acelerar a tramitação neste momento, Alcolumbre empurra uma eventual deliberação para um cenário político mais adiante, potencialmente já sob influência do ambiente eleitoral de 2026. Com isso, preserva margem de manobra sobre um tema que mobiliza sindicatos, trabalhadores e parte expressiva da opinião pública.
O cálculo político também leva em conta a própria posição do senador. Eleito em 2022, Alcolumbre integra o grupo de um terço dos senadores que só voltará às urnas em 2030. Isso reduz eventuais custos eleitorais imediatos decorrentes da decisão de retardar o avanço da proposta.
Mais do que administrar a pauta legislativa do presente, o presidente do Senado parece mirar a sucessão da própria Casa. Caso a PEC continue sem definição até a conclusão do próximo ciclo eleitoral, caberá a ele decidir se o texto será pautado, acelerado ou mantido em espera já com o novo cenário político nacional definido.
Trata-se de um instrumento de poder relevante, capaz de ampliar sua capacidade de negociação tanto com o governo quanto com diferentes grupos políticos.
Nesse contexto, o controle sobre matérias de grande repercussão social pode se transformar em ativo estratégico para a disputa pela presidência do Senado em 2027. Ao manter sob sua influência temas sensíveis e de alto interesse público, Alcolumbre preserva uma moeda política valiosa para a próxima batalha pelo comando da Casa Alta.