Por que torcer na Copa do Mundo provoca ansiedade?

Psicóloga explica porque o Mundial desperta emoções intensas e como isso afeta a saúde e a rotina dos torcedores

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Soccer Football - FIFA World Cup 2026 - Round of 16 - Brazil v Norway - Fans gather in Sao Paulo - Sao Paulo, Brazil - July 5, 2026 Brazil fans react as they watch the match in Sao Paulo REUTERS/Tuane Fernandes
Foto: Tuane Fernandes/Reuters

A cada quatro anos, torcedores de diferentes clubes deixam as rivalidades de lado para apoiar a seleção de seu país durante a Copa do Mundo. O torneio, disputado ao longo de aproximadamente um mês, desperta emoções intensas e costuma mexer profundamente com o lado emocional dos apaixonados por futebol, alternando momentos de ansiedade, expectativa e euforia a cada partida.

No Mundial, torcer por uma seleção vai muito além de acompanhar uma competição esportiva. Cada jogo desperta sentimentos de pertencimento, identidade e memória afetiva, tornando a experiência ainda mais significativa para os torcedores. Além disso, o fato de a Copa acontecer apenas de quatro em quatro anos reforça a sensação de importância do evento e favorece o surgimento da chamada ansiedade antecipatória, que pode aparecer dias ou até semanas antes de um confronto decisivo.

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“Para o cérebro, a Seleção não é apenas um grupo de jogadores, mas uma extensão da própria identidade do torcedor. Por causa dos nossos ‘neurônios-espelho’, o cérebro do torcedor processa o jogo como se ele estivesse em campo. A incerteza do resultado gera o que chamamos de ‘ansiedade antecipatória’. Evolutivamente, o cérebro humano não lida bem com a incerteza, interpretando-a como uma ameaça. Assim, o mero pensamento do time perdendo aciona o mecanismo de ‘luta ou fuga’, liberando uma cascata de hormônios do estresse, como o cortisol e a adrenalina”, explica Priscila Mendes, psicóloga esportiva do Inter de Minas, clube que é parceiro oficial do Flamengo na formação atletas em Minas Gerais.

É um dos poucos momentos na sociedade moderna onde é socialmente aceitável expressar emoções primárias de forma tão intensa e pública: gritar, chorar, abraçar desconhecidos e demonstrar frustração”, continua.

Segundo a especialista, os sintomas da ansiedade podem se manifestar de diferentes formas, como dificuldade para dormir, irritabilidade, angústia, tensão muscular e até desconfortos gastrointestinais, o conhecido “frio na barriga”. Esse quadro é potencializado por toda a atmosfera que envolve a Copa do Mundo, desde as ruas decoradas até a cobertura constante da imprensa e as conversas sobre futebol entre familiares, amigos e colegas de trabalho.

“Toda essa atmosfera de festa e tensão não mexe apenas com a mente, mas gera um impacto real na saúde física. Fisiologicamente, a liberação intensa de adrenalina causa vasoconstrição (estreitamento dos vasos sanguíneos causado pela contração dos músculos presentes em suas paredes) e aumento brusco da frequência cardíaca e da pressão arterial. Para pessoas saudáveis, isso costuma ser inofensivo. Porém, para indivíduos com doenças cardiovasculares pré-existentes, esse pico de estresse pode ser perigoso”, pondera Priscila.

Já psicologicamente, o descontrole emocional também passa a ser prejudicial quando o torcedor perde a capacidade de reflexão, resultando em impulsividade, explosões de raiva, brigas ou até em violência doméstica. Quando a identidade de alguém se funde tanto ao time que uma derrota desencadeia uma depressão temporária, a paixão se tornou patológica”, acrescenta.

A psicóloga ressalta que o caminho não é deixar de torcer, mas aprender a controlar as próprias emoções para aproveitar os benefícios que o esporte proporciona ao convívio social e ao bem-estar. Entre as principais recomendações estão:

  • Respiração consciente: durante a partida, caso o coração acelere excessivamente, pratique a respiração diafragmática, inspirando profundamente e expirando lentamente. A técnica ajuda a reduzir os efeitos da adrenalina.
  • Pausas estratégicas: aproveite o intervalo ou momentos de maior tensão para levantar, caminhar e beber água. Mudar o foco visual contribui para aliviar a tensão física e mental.
  • Controle dos gatilhos: evite o consumo exagerado de café, energéticos e bebidas alcoólicas, que podem intensificar a ansiedade e favorecer comportamentos impulsivos.
  • Ressignificação cognitiva: lembre-se de que o futebol é uma forma de entretenimento. O resultado de uma partida não determina o valor pessoal de ninguém nem deve influenciar o humor por vários dias.
  • Atenção aos sinais físicos: dores persistentes no peito, falta intensa de ar ou palpitações prolongadas não devem ser atribuídas apenas ao nervosismo. Nesses casos, a orientação é procurar atendimento médico imediatamente.

Produtividade: como a ansiedade da Copa pode afetar o trabalho

A especialista também faz um alerta para que a ansiedade gerada pela Copa do Mundo não ultrapasse os limites do bom senso no ambiente profissional. Segundo ela, principalmente às vésperas de partidas decisivas, o excesso de expectativa pode comprometer a concentração, a memória de curto prazo e a capacidade de tomar decisões.

Além disso, o período do torneio costuma alterar hábitos importantes, como a qualidade do sono e da alimentação. O consumo de refeições mais pesadas e bebidas alcoólicas durante os jogos, aliado ao costume de permanecer acordado até tarde acompanhando partidas e repercussões, tende a reduzir a disposição física no dia seguinte.

Por isso, a psicóloga destaca que produtividade e bem-estar estão diretamente ligados ao planejamento da rotina. Antecipar tarefas mais importantes, organizar os horários e manter uma rotina de sono equilibrada são atitudes que ajudam a conciliar a paixão pelo futebol com o desempenho profissional.

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