Após uma longa noite de negociações, o governo norte-americano finalmente emitiu uma declaração oficial acompanhada de um documento de 138 páginas, detalhando as especificidades das novas tarifas comerciais e listando os produtos atingidos e os isentos. A leitura minuciosa do relatório revela um esforço de Washington em caracterizar a medida como um processo estritamente técnico e econômico. Contudo, a análise da investigação que durou cerca de um ano deixa evidente o pano de fundo político da decisão.
Um exemplo claro é a inclusão de critérios ambientais, como o desmatamento no Brasil, tratados como entraves comerciais, a despeito do habitual ceticismo da própria gestão de Donald Trump em relação às mudanças climáticas. Essa abordagem expõe a contaminação política na imposição da sobretaxa de 25% aplicada ao país.
A medida protecionista, contudo, não incidirá sobre a totalidade das exportações brasileiras, focando em um conjunto de aproximadamente 3 mil itens. De acordo com projeções da Câmara de Comércio Brasil-Estados Unidos, a alíquota afetará cerca de US$ 11 bilhões em vendas ao mercado norte-americano.
O cenário se mostra ainda mais complexo diante da possibilidade de aplicação de uma sobretaxa adicional de 12,5%, o que consolidaria o Brasil como o segundo país mais tarifado pela Casa Branca globalmente, atrás apenas da China.
A decisão disparou uma imediata disputa de narrativas nos bastidores políticos. O secretário de Estado norte-americano Marco Rubio manifestou-se rapidamente nas redes sociais com críticas ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Em contrapartida, o governo brasileiro sustenta que buscou esgotar as vias diplomáticas por meio de aproximadamente 30 contatos e reuniões bilaterais — tanto técnicas quanto de alto escalão —, mas deparou-se com a inflexibilidade norte-americana. Washington, por sua vez, alega que as tarifas têm como finalidade forçar modificações nas práticas comerciais brasileiras.
Na prática, o governo norte-americano utiliza o protecionismo alfandegário como ferramenta de pressão para obter concessões estratégicas em outras frentes. Entre as demandas de Washington, destaca-se a abertura de mercado no sistema de pagamentos Pix, ponto em que o Palácio do Planalto recusa-se a ceder.
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Além disso, a Casa Branca contesta as preferências comerciais que o Brasil concede a parceiros como a Índia e o México, exigindo tratamento equivalente para as mercadorias dos Estados Unidos. O impasse estabelece um ponto de forte tensão na diplomacia bilateral, com inevitáveis reflexos no cenário político-eleitoral brasileiro.
As 138 páginas do documento explicitam as pressões e os argumentos de diferentes setores econômicos para a inclusão ou exclusão de itens na lista de isenções. Para organizar o processo, a administração norte-americana adotou critérios específicos de elegibilidade. O principal deles poupa produtos cuja tarifação traria prejuízos diretos à própria cadeia de suprimentos ou à produção doméstica dos Estados Unidos, evitando gargalos no abastecimento e o encarecimento de bens ao consumidor final. É o caso da carne bovina que, embora produzida localmente, necessita do volume importado do Brasil para suprir a totalidade do consumo interno norte-americano.
Outro critério essencial de isenção aplica-se a mercadorias sem concorrente ou produção similar em território norte-americano, como a castanha de caju e outros produtos agrícolas tropicais. Diante dessas diretrizes, a lista de exceções foi ampliada para abrigar cerca de 2.100 produtos. O avanço é altamente significativo quando comparado ao relatório preliminar divulgado em junho, que contemplava apenas 16 itens isentos, ilustrando o impacto do intenso trabalho de bastidores na formatação final da política tarifária.
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