A final da Copa do Mundo de 2026, entre Argentina e Espanha, acrescenta um componente político ao confronto em campo. Além da disputa esportiva, o duelo reúne os países governados por Javier Milei e Pedro Sánchez, protagonistas de uma das crises diplomáticas mais intensas dos últimos anos entre Europa e América Latina.
A rivalidade entre os dois líderes tem origem em diferenças ideológicas profundas. Sánchez, primeiro-ministro espanhol e líder do Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE), representa a centro-esquerda e defende políticas de bem-estar social e maior atuação do Estado. Já Milei, presidente da Argentina, se define como libertário e anarcocapitalista, faz duras críticas ao socialismo e adota um discurso antissistema.
O conflito ganhou dimensão internacional em maio de 2024. O então ministro dos Transportes da Espanha, Óscar Puente, insinuou que Milei teria feito uso de substâncias durante a campanha eleitoral argentina. A Casa Rosada reagiu classificando as declarações como ofensivas e respondeu com críticas ao governo espanhol e à situação envolvendo a esposa de Sánchez, Begoña Gómez, alvo de uma investigação posteriormente arquivada pelo Ministério Público por falta de provas suficientes.
Poucas semanas depois, Milei viajou a Madri para participar de um evento promovido pelo partido Vox, sem realizar reuniões oficiais com Sánchez nem com o rei Felipe VI. Durante o discurso, voltou a atacar o socialismo e fez referência à primeira-dama espanhola ao afirmar que Sánchez tinha uma “mulher corrupta“, intensificando a crise.
A reação do governo espanhol foi imediata. Sánchez classificou as declarações como um ataque às instituições do país e exigiu um pedido público de desculpas. Como Milei recusou qualquer retratação, alegando ter sido o primeiro alvo de ataques, a Espanha retirou definitivamente sua embaixadora de Buenos Aires, em uma das medidas diplomáticas mais duras adotadas entre os dois países nas últimas décadas.
Desde então, a troca de críticas continuou. Milei passou a usar o episódio para reforçar seu discurso contra governos socialistas, chegando a chamar Sánchez de “bandido local”, “incompetente”, “mentiroso” e “covarde”. O premiê espanhol, por sua vez, afirmou que defenderia as instituições espanholas “dos insultos e da difamação” e acusou a “extrema direita internacional” de promover ataques à democracia.
A tensão também extrapolou os governos. Empresários espanhóis criticaram as declarações do presidente argentino por considerarem que prejudicavam o ambiente de negócios entre os dois países. Na Argentina, partidos de oposição cobraram uma política externa mais moderada, porém o governo sustentou que a crise era resultado de divergências pessoais e ideológicas, e não entre os Estados.
Agora, a decisão da Copa do Mundo ocorre em meio a esse histórico de confrontos. Pedro Sánchez declarou publicamente que acredita na conquista da segunda estrela da Espanha. “Não tenho dúvidas de que vamos conseguir neste domingo.”
O premiê anunciou que vai a Nova Jersey para assistir à partida no estádio MetLife. Lá, é provável que cruze com Donald Trump, com quem também não tem boa relação. O presidente americano ficou contrariado quando a Espanha não permitiu o uso de suas bases militares em março deste ano, em meio à crise dos EUA com o Irã. Outro ponto de atrito entre o socialista e Trump, que é próximo a Milei, é o valor gasto em defesa. Sánchez não aceitou a meta de elevar o investimento neste setor para 5% do PIB.
Javier Milei não quis viajar aos EUA e afirmou que acompanhará a partida da residência oficial em Olivos, na Argentina, mantendo um ritual supersticioso que, segundo ele, deu sorte à seleção durante toda a campanha.
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