Há 37 anos, um único fuzil apreendido no Rio de Janeiro virou notícia de destaque e foi tratado como um sinal de alerta. Hoje, a realidade é outra. Em 2026, em apenas sete meses, a Polícia Militar já ultrapassou a marca de 400 fuzis apreendidos. O que antes era uma exceção passou a fazer parte da rotina da segurança pública no estado.
Em novembro de 1989, policiais militares apreenderam, em Acari, na Zona Norte, o primeiro fuzil AR-15 encontrado com traficantes no estado. A arma foi apresentada pelo então governador Moreira Franco no Palácio Guanabara e o episódio foi tratado como um marco na escalada da violência.
Naquele período, o uso de fuzis por criminosos ainda era uma novidade. O poder de fogo das quadrilhas começava a mudar o cenário da segurança pública. Para o historiador Rodrigo Rainha, a transformação está ligada a um cenário internacional de circulação de armas.
“1989 também é quando cai o muro de Berlim. Você vai ter ali as consequências de quantas armas foram produzidas e distribuídas no âmbito da Guerra Fria. Quantas armas passaram a entrar no mercado paralelo”, afirmou.
Décadas depois, o cenário mudou completamente. Os fuzis deixaram de ser uma arma excepcional e passaram a ser utilizados por facções criminosas para controlar territórios, enfrentar grupos rivais e confrontar as forças de segurança.
O especialista em segurança pública Paulo Storani explica como essas armas passaram a integrar a estratégia das organizações criminosas: “o que nós vimos ao longo de décadas foi exatamente o aumento da adoção dessa ferramenta que serve para controlar territórios, impedindo que facções criminosas rivais adentrem, mas também invadir o território dessas outras facções e, muitas das vezes, enfrentar policiais durante as operações necessárias para conter o avanço dessa criminalidade violenta”.
Só no primeiro semestre de 2026, a Polícia Militar já ultrapassou a marca de 400 fuzis apreendidos no estado. O número representa quase metade de todas as apreensões registradas durante todo o ano de 2025.
O avanço desses armamentos também chegou ao interior. Em junho deste ano, o município de Miracema, no interior do Rio, registrou a primeira apreensão de um fuzil da história.
Mas especialistas alertam que retirar armas das ruas não resolve sozinho o problema. Para André Rodrigues, o tráfico de armamentos se tornou um mercado altamente lucrativo.
“A grande circulação de armas de fogo de calibre cada vez mais alto se deve principalmente ao fato de que o tráfico de armas de fogo é um negócio extremamente lucrativo”, explicou.
Em 1989, um único AR-15 mobilizou o governo fluminense e chamou a atenção do país. Hoje, o desafio é impedir que armas de guerra continuem chegando em quantidade suficiente para abastecer o crime organizado.




