A China voltou a enfrentar dúvidas sobre a confiabilidade de seus dados econômicos depois que autoridades de Pequim expuseram novos casos de manipulação de estatísticas fiscais por governos locais.
Segundo a agência estatal Xinhua, três administrações foram criticadas publicamente por distorcer resultados. O caso mais relevante ocorreu em Nanning, capital da região autônoma de Guangxi. Em 2024, a cidade inflou sua receita fiscal em 28,3 bilhões de yuans, o equivalente a cerca de US$ 390 milhões a US$ 416 milhões, dependendo da cotação usada.
A manobra envolveu empresas estatais locais e terrenos públicos. De acordo com a Xinhua, áreas que haviam sido transferidas gratuitamente para três companhias estatais passaram a ter valores registrados artificialmente. O dinheiro entrava como receita pública e depois era devolvido às empresas como compensação por desapropriação. Em um dos casos, o mesmo terreno passou por esse ciclo 18 vezes.
O problema, porém, é maior do que Nanning. Um relatório do Escritório Nacional de Auditoria da China apontou que 21 províncias e cidades inflaram receitas fiscais em 59,65 bilhões de yuans, por meio de operações como registrar recursos do Tesouro como despesa e depois recolocá-los como receita.
A revelação reforça uma desconfiança antiga de economistas, investidores e organismos internacionais. Em setembro de 2024, a própria China alterou sua lei de estatísticas para tentar combater fraudes em dados públicos. Na ocasião, a Reuters registrou que analistas de fora do país há anos questionam a confiabilidade dos números chineses, especialmente em meio à desaceleração econômica.
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A pressão sobre governos locais aumentou porque a economia chinesa perdeu força. Em 2024, a receita fiscal do país cresceu apenas 1,3%, bem abaixo dos 6,4% registrados em 2023. A arrecadação com impostos caiu 3,4%, enquanto receitas não tributárias, como multas e confiscos, dispararam 25,4%.
Para analistas, esse tipo de distorção torna mais difícil medir o real desempenho da segunda maior economia do mundo. Por isso, muitos acompanham indicadores alternativos, como consumo de energia, transporte de cargas e atividade industrial, considerados menos sujeitos à maquiagem política.
A credibilidade desses dados também importa para o Brasil. A China é o principal parceiro comercial brasileiro e responde por mais de um quarto das exportações do país, segundo o MDIC.
Quando Pequim divulga números frágeis, o impacto não fica restrito ao mercado chinês. Afeta decisões de investidores, empresas exportadoras e governos que dependem da leitura correta sobre o ritmo da economia chinesa.
No fundo, a questão é simples: se os dados locais podem ser inflados para melhorar desempenho político, fica mais difícil saber o tamanho real da desaceleração chinesa.




