O anúncio de que as estatais federais encerraram 2025 com lucro líquido recorde de R$ 169,4 bilhões parece contradizer outro dado recente: nos primeiros meses de 2026, essas mesmas empresas já acumulam um déficit de R$ 4,16 bilhões, o pior resultado para o período desde o início da série histórica do Banco Central, em 2002.
À primeira vista, os números sugerem uma rápida deterioração das contas públicas. Na prática, porém, os dois indicadores medem coisas diferentes, analisam conjuntos distintos de empresas e utilizam metodologias próprias, o que explica boa parte da aparente contradição.
O lucro de R$ 169,4 bilhões, divulgado pelo Ministério da Gestão e da Inovação em Serviços Públicos (MGI), refere-se ao resultado contábil das 44 empresas estatais federais ao longo de 2025. O indicador considera a diferença entre receitas e despesas das companhias, revelando se elas encerraram o exercício com lucro ou prejuízo.
Já o déficit de R$ 4,16 bilhões, divulgado pelo Banco Central para o início de 2026, representa o chamado resultado primário, um indicador fiscal que acompanha o fluxo de caixa das estatais — ou seja, quanto entrou e quanto saiu de recursos — e não necessariamente se a empresa deu lucro ou prejuízo.
Petrobras e bancos mudam completamente o cenário
Outra diferença decisiva está nas empresas que entram em cada cálculo. No levantamento do Ministério da Gestão, Petrobras, Banco do Brasil e BNDES fazem parte da conta e concentram praticamente todo o resultado positivo.
Sozinha, a Petrobras lucrou R$ 110,6 bilhões em 2025, equivalente a cerca de 65% do lucro total das estatais. Somados os resultados do BNDES (R$ 25,6 bilhões) e do Banco do Brasil (R$ 17,8 bilhões), as três companhias responderam por aproximadamente 91% de todo o lucro registrado pelo conjunto das empresas públicas federais.
Já a metodologia utilizada pelo Banco Central exclui Petrobras, Eletrobras e bancos públicos. O objetivo é acompanhar a situação fiscal das demais empresas estatais, especialmente aquelas ligadas à prestação de serviços públicos, logística, infraestrutura e tecnologia, cujo desempenho tem impacto mais direto sobre as contas do governo.
Na prática, isso significa que os bilhões obtidos pelas gigantes do petróleo e do sistema financeiro simplesmente não aparecem no cálculo do déficit divulgado pelo BC.
Déficit não significa necessariamente prejuízo
Outro ponto importante é que déficit primário não é sinônimo de prejuízo financeiro. Enquanto o lucro líquido mede o resultado econômico da empresa, o déficit primário acompanha o fluxo de caixa.
Isso significa que uma estatal pode ser financeiramente saudável e, ainda assim, apresentar déficit fiscal, caso esteja realizando grandes investimentos.
Se uma empresa utiliza recursos próprios para construir infraestrutura, ampliar instalações, comprar equipamentos ou executar projetos estratégicos, há uma saída de dinheiro do caixa naquele momento. No conceito utilizado pelo Banco Central, essa movimentação aumenta o déficit primário, embora o investimento possa fortalecer o patrimônio e gerar retorno futuro.
Em 2025, por exemplo, os investimentos das estatais federais alcançaram R$ 115,9 bilhões, crescimento de 115% em relação a 2022 e o terceiro ano consecutivo de expansão, segundo o governo.
O próprio relatório do Ministério da Gestão destaca que “déficit não é prejuízo”, ressaltando que investimentos e pagamento de dividendos podem piorar temporariamente o resultado fiscal sem indicar deterioração operacional das empresas.
Correios concentram a maior pressão sobre as contas
Apesar das diferenças metodológicas, há também problemas financeiros reais dentro do universo das estatais. O principal deles é a situação dos Correios, que atravessam sua maior crise financeira da história.
A empresa encerrou 2025 com prejuízo recorde de R$ 8,5 bilhões, mais de três vezes superior ao resultado negativo registrado no ano anterior, acumulando 14 trimestres consecutivos no vermelho.
A deterioração continuou em 2026. Apenas no primeiro trimestre, o prejuízo chegou a R$ 3,1 bilhões, alta de 82% na comparação com igual período do ano anterior.
Entre os fatores apontados para a piora das contas estão a queda nas receitas com encomendas internacionais, aumento das despesas administrativas, crescimento dos gastos com pessoal, pagamento de precatórios e dificuldades estruturais decorrentes da mudança no mercado de logística e comércio eletrônico.
Para enfrentar a crise, os Correios anunciaram programa de demissão voluntária, venda de imóveis, revisão de contratos e contratação de um empréstimo de R$ 12 bilhões com garantia da União.
O próprio Ministério da Gestão reconheceu que a situação financeira dos Correios é hoje o principal fator por trás do resultado negativo das estatais acompanhado pelo Banco Central.
Lucro continua elevado, mas concentrado
O relatório divulgado pelo governo mostra que o conjunto das estatais continua registrando indicadores robustos.
Além do lucro de R$ 169,4 bilhões, as empresas encerraram 2025 com faturamento de R$ 1,4 trilhão, ativos de R$ 7,2 trilhões e patrimônio líquido superior a R$ 1 trilhão pela primeira vez.
Também distribuíram R$ 84,2 bilhões em dividendos, sendo R$ 45,8 bilhões destinados à União, ao mesmo tempo em que elevaram os investimentos para quase R$ 116 bilhões.
O desempenho, entretanto, continua altamente concentrado nas grandes empresas dos setores de petróleo e financeiro, enquanto diversas estatais de serviços públicos operam com margens reduzidas ou enfrentam dificuldades estruturais.
Dois retratos diferentes das estatais
Assim, não há uma mudança brusca de um lucro bilionário para um rombo igualmente bilionário. Na realidade, os dois números retratam aspectos distintos das empresas públicas.
O lucro divulgado pelo Ministério da Gestão mostra o desempenho econômico agregado das 44 estatais, fortemente impulsionado por Petrobras e bancos públicos. Já o déficit informado pelo Banco Central reflete a situação fiscal das demais empresas federais, desconsiderando justamente essas gigantes e incorporando efeitos de investimentos, fluxo de caixa e crises específicas, como a dos Correios.
Em outras palavras, o Estado reúne empresas altamente lucrativas, capazes de gerar dividendos bilionários, e outras que dependem de investimentos públicos ou enfrentam dificuldades financeiras, o que faz com que lucro recorde e déficit fiscal possam coexistir sem que um dado necessariamente contradiga o outro.




