Enquanto os Estados Unidos comemoravam os 250 anos da independência no último sábado (04/07), Donald Trump aproveitou para lançar uma das iniciativas mais simbólicas de seu segundo mandato.
Desde o dia 4 de julho, começaram oficialmente as Trump Accounts, um programa que cria contas de investimento para crianças americanas com o objetivo de incentivar a formação de patrimônio desde o nascimento.
A ideia é simples: quanto mais cedo uma pessoa começar a investir, maior tende a ser o patrimônio acumulado ao longo da vida graças aos juros compostos.
Mas o programa também desperta críticas e levanta uma discussão maior: ele ajuda a reduzir a desigualdade ou beneficia principalmente quem já tem dinheiro para investir?
O que são as Trump Accounts?
As Trump Accounts — nome oficial dado pelo governo, embora a legislação também as classifique como contas 530A — funcionam como uma conta de investimento voltada para crianças.
O dinheiro é aplicado automaticamente em fundos de índice de baixo custo, que acompanham o desempenho do mercado de ações americano, sem que a família precise escolher ações específicas.
O objetivo é deixar o investimento crescer durante décadas.
Qualquer criança americana com número de Seguro Social pode abrir uma conta antes de completar 18 anos.
Quem recebe os US$ 1.000?
O principal incentivo do programa é um depósito inicial feito pelo governo federal.
Toda criança nascida entre 1º de janeiro de 2025 e 31 de dezembro de 2028 recebe automaticamente US$ 1.000 na conta.
Esse dinheiro é pago apenas uma vez.
A partir daí, a conta pode continuar recebendo depósitos feitos pelos pais, avós, outros familiares, empregadores dos pais e até instituições beneficentes.
O limite anual de contribuições é de US$ 5 mil.
Abrir a conta é gratuito.
Quando o dinheiro pode ser usado?
A conta acompanha a criança durante toda a infância.
Ao completar 18 anos, o beneficiário passa a controlar os recursos.
Os saques seguem regras semelhantes às contas individuais de aposentadoria dos Estados Unidos (IRAs). Dependendo da finalidade e da idade em que o dinheiro for retirado, pode haver cobrança de impostos ou restrições previstas na legislação.
A intenção do governo é estimular investimentos de longo prazo, e não o uso imediato dos recursos.
Empresas e bilionários aderiram ao programa
Além do incentivo federal, diversas empresas anunciaram programas próprios para fortalecer as contas.
Grandes bancos e companhias de tecnologia informaram que farão depósitos nas contas dos filhos de funcionários.
Também há participação da iniciativa privada.
O empresário Michael Dell, fundador da Dell Technologies, e sua esposa, Susan Dell, anunciaram uma doação destinada a ampliar o programa para crianças de famílias de menor renda.
Em algumas cidades americanas, empresários locais prometeram depósitos adicionais para todos os bebês nascidos em 2026.
A cantora Nicki Minaj também afirmou que pretende contribuir com recursos para contas de fãs, embora os critérios de distribuição ainda não tenham sido detalhados.
Quanto esse dinheiro pode render?
Essa é a promessa que mais chama atenção.
O site oficial das Trump Accounts afirma que um depósito inicial de US$ 1.000, sem nenhuma contribuição adicional, poderia alcançar aproximadamente US$ 243 mil aos 55 anos.
A projeção considera décadas de valorização do mercado financeiro e o reinvestimento contínuo dos rendimentos.
Na prática, trata-se de uma simulação.
Especialistas lembram que retornos passados não garantem ganhos futuros e que o desempenho dependerá do comportamento da economia americana durante várias décadas.
Além disso, a inflação reduz o poder de compra ao longo do tempo, o que significa que esse valor futuro não terá o mesmo peso econômico de hoje.
Por que o programa divide opiniões?
Para os defensores, as Trump Accounts representam uma mudança importante na forma de combater a desigualdade.
Em vez de concentrar políticas públicas apenas em assistência social, a proposta tenta criar patrimônio desde o nascimento.
A lógica é que mesmo pequenas quantias investidas cedo podem crescer significativamente ao longo dos anos.
Já os críticos afirmam que o programa tende a ampliar diferenças.
Isso porque famílias de maior renda terão condições de fazer depósitos anuais próximos ao limite de US$ 5 mil, enquanto famílias mais pobres dificilmente conseguirão contribuir regularmente.
Assim, crianças que já nasceram em famílias com maior capacidade financeira poderão acumular um patrimônio muito superior.
Uma mudança de filosofia
As Trump Accounts representam uma das marcas da política econômica do segundo mandato de Donald Trump.
Em vez de ampliar programas tradicionais de transferência de renda, o governo aposta no mercado financeiro como instrumento para estimular a formação de patrimônio.
A estratégia parte da ideia de que investir cedo pode ser mais eficiente do que criar novos programas de assistência no futuro.
Se essa aposta dará resultado, porém, só poderá ser medida daqui a décadas.
O que já se sabe é que o governo americano colocou um novo conceito no centro do debate: a possibilidade de começar a investir antes mesmo de aprender a andar.




