Faz uma década desde que a ESPN exibiu a Copa do Brasil pela última vez. A partir de 2027, o canal voltará a transmitir o torneio, adicionando uma terceira competição relevante disputada pelos principais clubes brasileiros da primeira divisão ao seu portfólio.
Os direitos da Libertadores e da Sul-Americana foram renovados no fim do ano passado, anunciados como o maior catálogo de jogos de futebol da América do Sul.
Oficialmente, o novo contrato ainda não foi assinado com a CBF. Enquanto aguarda para fazer o anúncio, a Disney também não definiu onde os jogos serão exibidos, segundo apuração de Erich Beting, na Máquina do Esporte.
O terceiro pacote, classificado como multiplataforma, é o mesmo adquirido pelo Prime Video e contempla TV fechada e streaming. Não está claro, porém, se a ESPN poderá levar esses jogos para o YouTube.
A dúvida é pertinente porque, há pouco mais de um ano, a ESPN começava sua experiência com transmissões no YouTube. A estreia aconteceu em outubro passado, na mesma semana em que publiquei uma entrevista com Carlos Maluf, head de esportes da Disney no Brasil, analisando a estratégia.
Na conversa, Maluf tratou a entrada no YouTube com cautela, especialmente diante da onda de conteúdo esportivo gratuito que começava a ganhar força. “Não estamos sendo radicais na forma de como entrar no YouTube”, disse.
O YouTube poderia funcionar como vitrine, atrair novos públicos e servir de funil para o negócio principal, formado pela TV paga e pelo streaming da Disney. A ESPN entraria na plataforma sem entregar ali aquilo que sustenta o valor de seus produtos premium.
Nas últimas duas semanas, jogos que apareciam na programação da ESPN no YouTube não foram exibidos. A ausência chamou a atenção da comunidade de futebol no X/Twitter, que passou a especular se o canal havia desistido das transmissões de partidas de menor apelo.
O perfil de Carlos Salvador, que acompanha de perto as lives de futebol programadas no YouTube, informou que a ESPN está trabalhando para resolver questões de geoblock.
A experiência no YouTube, ainda em construção, recupera uma preocupação que Maluf já externava desde a estreia. Encontrar novas audiências sem comprometer o valor do negócio que paga a conta.
Nos Estados Unidos, preservar esse negócio ficou progressivamente mais difícil.
Em uma análise recente intitulada “Streaming Is ESPN’s Prince Charming”, Michael Beach expõe a questão em termos financeiros. Durante quinze anos, a ESPN conseguiu aumentar sua receita enquanto sua base de assinantes de TV paga encolhia.
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Na síntese de Beach, menos casas significavam taxas maiores.
Desde o pico de 2010, a base de assinantes de TV paga da ESPN caiu 44%, de 92 milhões para uma projeção de 56 milhões em 2026. Nesse mesmo intervalo, a receita por assinante subiu 163% e a receita total cresceu 42%.
Foi uma máquina extraordinária de geração de dinheiro.
A própria ESPN ajudou a financiar a transformação da Disney. Segundo o levantamento de Beach, a operação esportiva gerou cerca de US$ 75 bilhões em lucro para a companhia desde que a Disney adquiriu a ESPN, em 1995. Parte desse dinheiro custeou aquisições como Pixar, Marvel e Star Wars.
Aqui, metáfora da “vaca leiteira” talvez nunca tenha sido tão apropriada.
Há um limite, porém, para aumentar a cobrança de uma base que encolhe todos os anos. E a conta fica ainda mais apertada porque os direitos esportivos continuam subindo.
Entre 2025 e 2029, a projeção citada por Beach aponta crescimento anual de 3,8% nos custos dos direitos de mídia esportiva, enquanto a receita da ESPN pode recuar 0,6% ao ano.
O efeito aparece na margem de fluxo de caixa. Ela teria caído de 42% em 2011 para 16% em 2026. Para 2029, a estimativa é que os custos de conteúdo representem 87% da receita total.
Em outras palavras, a expectativa para daqui três anos coloca 87 centavos de cada dólar de receita da ESPN comprometidos com conteúdo. Sobra pouco espaço para errar.
E é nesse cenário que entra a ESPN Unlimited, integrada ao YouTube TV desde o último dia 1º, sem custos adicionais para os assinantes.
O ESPN Unlimited reúne o universo de transmissões da ESPN em um só lugar, combinando a programação de todos os canais de TV fechada com os conteúdos exclusivos via streaming do antigo ESPN+.
A Disney não divulga oficialmente o número de assinantes do serviço. A projeção da Kagan citada por Beach aponta 4,3 milhões no primeiro trimestre de 2026, sem contar as famílias que recebem acesso por meio de pacotes de TV paga.
No mesmo período, a ESPN teria perdido cerca de 3,3 milhões de assinantes da TV tradicional. A conta líquida ainda seria positiva em aproximadamente 1 milhão.
Falta, entretanto, descobrir o que isso significa em dinheiro.
A matemática feita por Beach considera o seguinte cenário. Se a ESPN perde três milhões de casas que representavam aproximadamente US$ 138 anuais em receita por assinatura e acrescenta quatro milhões de clientes no Unlimited, o novo serviço precisa produzir cerca de US$ 8,83 mensais por assinante para compensar a perda. Com uma mensalidade de US$ 32, a primeira conta fecha.
Só que esse é o primeiro ano, ressaltou o analista.
O ponto é que a substituição da TV paga pelo streaming acontece em condições menos favoráveis para a ESPN. A empresa terá de capturar mais valor de uma base menor, justamente quando os direitos esportivos consomem uma parcela cada vez maior da receita.
A ESPN passou décadas aperfeiçoando uma máquina que cobrava de milhões de pessoas para colocar os grandes eventos esportivos dentro de suas casas. Agora precisa construir outra, capaz de convencer essas mesmas pessoas a pagar diretamente por seu conteúdo.
O detalhe é que o novo modelo não tem a escala do anterior.