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Especialista em inovação e economia criativa. Em sua coluna, explora as transformações da creator economy, novos formatos de mídia e as estratégias comerciais que estão moldando o futuro da comunicação digital.

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Como a LiveMode transformou a CazéTV em uma operação equivalente à de uma emissora tradicional

A Copa no Prime Video é o tipo de acordo de transporte e retransmissão que sinaliza como o canal monetiza também pela economia de distribuição no atacado, vinculada ao alcance de assinantes. Isso muda a percepção e a avaliação do negócio

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(Print Prime Video)

Foi no mínimo curiosa a abordagem dada pela imprensa nos últimos dias para repercutir o “acordo fechado” entre Prime Video e CazéTV sobre a “parceria” por meio da qual eles “se juntam” para exibir os jogos da Copa do Mundo de 2026.

As expressões em aspas sugerem algo inédito quando, na verdade, tratava-se de uma colaboração, convenhamos, esperada. Afinal, a CazéTV está no ecossistema da Amazon desde o início de junho de 2024.

Na época, analisei a colaboração sob o aspecto dos agrupamentos. A estratégia de agregar para distribuir e escalar, nas palavras de Julia Alexander, estabelecia uma relação LTV-CAC (lifetime-value-to-customer-acquisition-cost) muito mais elevada, fator vital para as plataformas.

Em 2025, as partes já haviam renovado o acordo nesta mesma época, garantindo a exibição do Mundial de Clubes dentro da plataforma da Amazon.

(Aqui, repare novamente na data, ponto que levantei na discussão recente sobre ESPN, CazéTV e direitos. Foi em junho de 2025, 12 meses depois, que a LiveMode negociou sua entrada no Disney+, cinco semanas antes de anunciar a transmissão dos 104 jogos do Mundial. Agora, negociam uma renovação).

Desde aquele arranjo inicial firmado há dois anos, o projeto se consolidou. Em sua segunda Copa, a LiveMode transformou gradualmente a CazéTV em uma operação estruturalmente muito mais próxima de uma emissora tradicional.

Ao analisar a recente aquisição dos direitos da LaLiga pelo canal, Yannick Ramcke aponta uma mudança estratégica que desmonta a leitura simplista de que o YouTube apenas “derrota” a televisão.

A questão destacada pelo especialista é: a distribuição gratuita financiada exclusivamente por patrocínio dificilmente sustentaria, sozinha, direitos esportivos premium de primeira linha.

Então, a saída estaria justamente na incorporação de receitas de distribuição B2B, complementando o bolo publicitário tradicional.

Quando a CazéTV foi lançada em 2022, recorda Ramcke, ela se posicionava como uma camada incremental dentro de uma evolução mais ampla da distribuição esportiva: detentores de direitos experimentando distribuição digital gratuita e liderada por criadores para (1) alcançar audiências mais jovens e (2) criar concorrência incremental em um mercado brasileiro de direitos relativamente pouco competitivo.

Nas palavras de Ramcke, agora, a CazéTV monetiza cada vez mais por meio da economia de distribuição por atacado (wholesale), atrelada ao alcance de assinantes de cada plataforma. Ou seja, acordos de transporte e retransmissão como o atual com o Prime Video e o que está em renegociação com a Disney.

Há um ano, quando escrevi sobre a guerra declarada entre Globo e CazéTV durante o Mundial de Clubes no contexto da velha x nova mídia, trouxe uma fala de Rob Pilgrim, chefe de esportes e horário nobre do YouTube EMEA, ao podcast Sports Pundit.

Ele debatia justamente a dificuldade do mercado em compreender como o YouTube reposicionava o valor do esporte premium. Não para sabotar as emissoras tradicionais, mas com o objetivo de reduzir o atrito entre elas, citando o case da CazéTV na Copa de 2022.

Essa leitura conciliatória 12 meses depois, porém, parece insuficiente diante do novo estágio competitivo da plataforma.

Para Ramcke, os detentores de direitos passa a ver a CazéTV menos como um complemento digital e mais como uma licitante de pleno direito por propriedades premium exclusivas, competindo diretamente com as “incumbentes em um ambiente de leilão de soma zero.”

Os números apresentados pelo YouTube durante o lançamento do Brand VAR, na última quarta, ajudam a entender por que a CazéTV deixou de ser percebida apenas como um braço promocional do ecossistema digital.

Segundo a plataforma, 56% do consumo de streaming no Brasil já acontece dentro do YouTube. O tempo de consumo esportivo em CTV cresceu mais de 45% no último ano, enquanto o futebol acumulou 3 bilhões de horas vistas em 2025.

Mas talvez o dado mais relevante dentro da disputa entre mídia legada e mídia de creators seja outro: para cada uma hora assistida de TV linear ao vivo, quase 50 minutos são de programação esportiva.

No YouTube, o esporte encontrou um universo sem barreiras e de alcance massivo para ser o fiel da balança em meio à transição digital e disputa do mercado pelo dinheiro dos anunciantes.

Em um dos slides apresentados por Aline Moda, diretora de desenvolvimento de agências e soluções para marcas do Google Brasil, a linha do tempo iniciada em 2019 escancara como o YouTube vem construindo um ecossistema esportivo robusto, tendo a CazéTV concentrando alguns dos principais direitos premium da plataforma.

Ramcke diz que o modelo da CazéTV se aproxima do funcionamento de emissoras americanas como ABC, FOX, NBC e CBS: tecnicamente gratuitas, mas sustentadas simultaneamente por publicidade (foram 11 cotas fechadas para a Copa) e taxas de retransmissão.

“É, sem dúvida, um dos modelos mais resilientes no atual mercado de vídeo fragmentado e com fadiga de assinaturas”, defende.

Nos dois artigos publicados há duas semanas, nos quais analisei a negociação entre Disney e LiveMode/CazéTV em um mercado pressionado pelas big techs, trouxe a tese de Josh Stein para contextualizar os resultados financeiros da ESPN e seus gastos anuais de aproximadamente US$ 11 bilhões com direitos esportivos (equivalente a cerca de 75% de todo o resultado operacional da operação).

Aplicado às negociações entre Disney e LiveMode/CazéTV, o raciocínio ajuda a explicar uma assimetria importante.

Os direitos da Disney estão enterrados dentro de um balanço corporativo gigantesco, enquanto os ativos da CazéTV são mais isoláveis, legíveis e facilmente precificáveis.

Quando a LiveMode/CazéTV pleiteia a Premier League dentro das negociações com a Disney, ela disputa um ativo cuja precificação, dentro da lógica de Stein, é mais limpa do que a dos próprios direitos já carregados pela ESPN.

Desta vez, essa discussão ganha outra dimensão a partir da leitura de Ramcke: o mercado pode ter substituído um detentor de direitos sem necessariamente desestabilizar de forma relevante a distribuidora incumbente.

Se essa análise estiver correta, considerando a perda da LaLiga pela ESPN, Ramcke aponta que uma parte significativa do custo de direitos evitado pela Disney (cerca de US$ 30 milhões anuais, excluindo produção) pode ir diretamente para o lucro operacional, por meio da preservação da retenção de assinantes.

Talvez, esse seja justamente o ponto mais subestimado da discussão atual.

A CazéTV não opera mais apenas como um fenômeno da creator economy ou como uma alternativa “digital” à televisão esportiva tradicional. Aos poucos, ela passa a ocupar uma posição historicamente reservada às grandes distribuidoras: a de infraestrutura estratégica dentro da cadeia de valor dos direitos esportivos.

E, nesse cenário, a disputa deixa de ser simplesmente entre TV e YouTube, como Ramcke sugeriu. E escala para um embate entre modelos econômicos capazes (ou não) de sustentar o próximo ciclo global do esporte premium.

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