Os torcedores argentinos não estão deixando nada ao acaso antes da semifinal da Copa do Mundo contra a Inglaterra, colocando o nome do capitão Harry Kane no freezer e repetindo fielmente rituais que acreditam trazer sorte à seleção.
Essas práticas fazem parte da longa tradição argentina das “cabalas” — superstições que os torcedores acreditam que podem influenciar o destino do seu time. Enquanto a atual campeã Argentina se prepara para enfrentar a Inglaterra por uma vaga na final, os torcedores se apegam às rotinas que, segundo eles, ajudaram a garantir vitórias no passado.
Muitos se recusam a dizer os nomes dos adversários, usam as mesmas camisetas — muitas vezes sem lavar —, sentam-se nos mesmos lugares e comem as mesmas refeições antes de cada partida, convencidos de que mudar qualquer coisa poderia prejudicar as chances da seleção de conquistar mais um troféu.
“Meus amigos e eu temos um ritual”, disse Inês Mutri, de 13 anos. “Escrevemos o nome do principal jogador e do goleiro no mesmo pedaço de papel e colocamos no congelador”, explicou.
“Desta vez, vamos congelar o Kane porque ele é o artilheiro”, acrescentou.
Em um país onde o futebol inspira uma devoção quase religiosa, tais rituais, dizem os torcedores, oferecem uma sensação de controle sobre um resultado que, no fim das contas, permanece fora de sua influência.
De Bilardo a Scaloni: a tradição das “cabalas” no futebol argentino
A tradição é profundamente enraizada. Carlos Bilardo, o técnico que levou a Argentina ao título da Copa do Mundo de 1986, ficou famoso por superstições elaboradas, como ditar a ordem em que os jogadores entravam em campo, ajudando a consolidar as “cabalas” no folclore do futebol argentino.
Até mesmo o atual técnico, Lionel Scaloni, admitiu que tem seu próprio ritual. “Entro em campo com o pé direito e faço o sinal da cruz”, disse durante o torneio.
Alguns costumes evoluem com o tempo. Durante a Copa do Mundo deste ano, os torcedores compartilharam nas redes sociais imagens geradas por IA mostrando jogadores rivais congelados em blocos de gelo — uma forma simbólica de impedir que eles se movessem, marcassem gols ou fizessem defesas.
A ideia se espalhou para a vida real. O estudante Juan Pablo Calvo, de 18 anos, disse que planeja congelar o nome de Jude Bellingham porque o considera “um jogador incrível”, embora continue confiante na Argentina.
Rivalidade histórica e o reencontro com a Inglaterra
A partida renova uma das rivalidades mais lendárias do futebol internacional, desde o gol da “Mão de Deus” de Diego Maradona em 1986 até uma série de confrontos memoráveis nas fases eliminatórias.
Para a semifinal, Calvo vestirá uma camisa igual à que Maradona usou na Copa do Mundo de 1986, quando a Argentina conquistou o título.
“Embora Messi já tenha conquistado todos os troféus possíveis, esta é uma oportunidade especial porque ele nunca enfrentou a Inglaterra em uma partida como esta, muito menos em uma semifinal”, disse Calvo.
Outros torcedores dizem que a repetição é a “cabala” mais importante. Assim que a Argentina vence, cada detalhe daquele dia deve ser recriado para a próxima partida: as mesmas pessoas, o mesmo lugar, a mesma camisa e, se possível, a mesma refeição.
Mutri está assistindo aos jogos com oito amigos que usam os mesmos bonés e se sentam nos mesmos lugares em cada um deles. “Sinto que a partida contra a Inglaterra vai ser nervosa, como todas as outras”, disse. “Mas vai ser bom. Vai ser divertido.”
Reportagem: Por Reuters




