A Vila Belmiro sempre foi um palco de contrastes, mas a última semana testou o coração até do santista mais calejado. No domingo, o CT Rei Pelé virou cenário de um drama que parecia saído de um roteiro de tragédia grega: o ídolo maior, o “padrinho” Neymar, perdeu a cabeça e desferiu um tapa no rosto da joia da casa, Robinho Jr. Na terça, sob o céu paraguaio e o amargor de um empate contra o Recoleta, o cenário mudou para um filme de reconciliação com direito a abraço e promessas de amor eterno.
Robinho Jr., aos 18 anos, sentiu o peso da mão de quem deveria lhe dar o caminho. A agressão — que incluiu uma rasteira e um tapa “violento”, segundo a notificação extrajudicial agora retirada — nasceu de um drible. Sim, o pecado do jovem foi ousar contra o mestre. A reação de Neymar foi o reflexo de um craque que, embora genial, por vezes ainda se deixa trair pelo temperamento intempestivo que o acompanha desde o início da carreira.
O pedido de desculpas veio rápido, no vestiário e na rede social, mas o estrago já estava feito. A notificação extrajudicial movida pelo estafe do garoto foi o grito de revolta de quem não aceitou o “passar de pano” sugerido por muitos. Cuca, sempre direto, deu o tom: não se pode normalizar o que é inaceitável, mesmo vindo de um gênio.
Mas o Santos tem uma mística própria de sobrevivência. Na noite de ontem, após Neymar balançar as redes, o abraço em Robinho Jr. não foi apenas para as câmeras; foi o selo de um pacto de paz necessário para um clube que respira por aparelhos na Sul-Americana.
“Minha vida é aqui no Santos”, declarou Robinho Jr. na zona mista.
A frase é um alento. O jovem, que poderia ter usado o episódio para forçar uma saída ou criar um racha irreparável, escolheu a maturidade. Admitiu que a notificação foi fruto de um “momento de raiva” e preferiu olhar para o contrato que o liga à Vila até 2031.
O caso parece encerrado juridicamente, mas deixa lições. Para Neymar, a de que a liderança se impõe pelo exemplo, não pelo medo. Para Robinho Jr., a de que o brilho do seu talento incomoda até os gigantes. E para o Santos? Bom, para o Santos fica o desafio de transformar essa união de vestiário em vitórias dentro de campo, porque, no fim do dia, o torcedor aceita o tapa e o beijo, mas não suporta a falta de resultados.
A paz voltou ao Reino do Futebol. Que ela dure pelo menos até o próximo drible.