O Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) acionou, pela primeira vez no Brasil, um plano emergencial para cortar geração de micro e miniusinas, painéis solares e pequenas eólicas conectadas à rede de distribuição. A operação ocorreu no último domingo.
O motivo foi simples: havia energia demais para pouca gente consumindo. “Geralmente, no fim de semana, a carga fica em torno de 40 GW a 50 GW. Estava prevista uma carga ontem (domingo) em torno de 27 GW a 30 GW, muito abaixo. Então, a gente entrou com um plano de corte na geração tipo 3”, afirmou o diretor-geral do ONS, Marcio Rea. Com tanta geração sobrando, o sistema elétrico corria risco de desequilíbrio.
No sábado, 6 de junho, o ONS comunicou doze distribuidoras e pediu que cada uma segurasse parte da geração em sua área. O total solicitado foi de 1 GW, equivalente, em termos práticos, ao consumo de uma cidade de médio porte.
As interrupções foram realizadas entre 10h e 14h do domingo. As distribuidoras acionadas foram Celesc, Cemig, Neoenergia Coelba, Copel, CPFL Paulista, EDP ES, Neoenergia Elektro, Energisa Mato Grosso, Energisa Mato Grosso do Sul, Equatorial Goiás, Neoenergia Pernambuco e RGE.
Rea descreveu a ação como um teste. Na segunda-feira, 8 de junho, em evento, ele afirmou: “A gente deu um comando de cortar, (tivemos que) pedir para que as distribuidoras cortem, segurem essa energia para ela não entrar no sistema. Foi um teste, primeira vez no Brasil que a gente faz essa operação e correu tudo bem. Mas tivemos que depender das distribuidoras, porque a gente não enxerga essa energia.”
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Nem todos obedeceram
Um problema surgiu durante a operação. Segundo a Agência iNFRA, parte dos pequenos geradores não atendeu ao comando das concessionárias para interromper a produção. As distribuidoras ainda estão levantando o volume exato de geração que deixou de ser cortada.
Essa falha abre dois caminhos regulatórios. De um lado, geradores que tiveram sua produção interrompida podem pedir ressarcimento por curtailment, termo técnico para o corte forçado de geração, junto à Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL). De outro, a ANEEL pode abrir processo fiscalizatório contra os geradores que ignoraram o comando, caso a falta de resposta seja comprovada.
Fontes ouvidas pela Agência iNFRA apontam que usinas a biomassa enfrentam uma particularidade: a produção delas está ligada a outros insumos do processo industrial, o que dificulta a interrupção imediata. Segundo as mesmas fontes, esse segmento estaria avaliando como reorganizar sua geração diante desse novo cenário. “O problema é se isso se tornar um rito ordinário”, disse uma pessoa a par do tema.
O que muda para o setor
O ONS tem até 30 dias para enviar à ANEEL um relatório de pós-operação detalhando o que aconteceu. O documento deve embasar um debate mais amplo sobre curtailment, que, até agora, era raro no Brasil.
Fontes do setor alertam que o problema tende a crescer. Com a expansão da geração distribuída, painéis solares em telhados de casas, empresas e fazendas, situações de excesso de oferta em horários de baixa demanda devem se repetir. A questão, segundo essas fontes, é se o corte emergencial vai virar rotina ou se o marco regulatório vai evoluir antes disso.




