Vivemos o drama de uma trégua que, na prática, é ilusória. A poucas horas do fim de um ultimato que ameaçava um ataque avassalador capaz de acabar com uma civilização iraniana, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, prorrogou o cessar-fogo com o Irã por tempo indeterminado.
Contudo, a verdadeira face dessa suposta paz revela-se no sufocamento da economia mundial e no alerta máximo no Estreito de Ormuz, expondo a maior tragédia da nossa geração: até sabemos muito como começar as guerras, mas não temos ideia de como encerrá-las.
Horas após a prorrogação sem prazo definido, a realidade se impôs pela força. No Estreito de Ormuz, testemunhamos o controle e a detenção de três navios por parte do Irã, sendo dois deles alvo de tiros. Simultaneamente, em Israel, foram reportados casos de violações do cessar-fogo no território libanês. A pergunta que me faço diariamente em Genebra é inevitável: o cessar-fogo existe ou não existe?
A narrativa de Trump tenta justificar o recuo afirmando que a falta de unidade no governo iraniano impediu a apresentação de uma contraproposta de paz. Os iranianos, por sua vez, rebatem dizendo que não há qualquer confiança nos americanos. O fato incontestável é que, após a morte de metade da sua liderança, a nova estrutura de poder no Irã passa por um complexo rearranjo interno que trava negociações.
O impacto dessa indefinição diplomática vai muito além das fronteiras do Oriente Médio, atingindo em cheio a nossa rotina global. O Estreito de Ormuz, uma das artérias centrais do comércio mundial há pelo menos 30 anos, tornou-se um gargalo de incertezas. Estima-se que cerca de 20.000 marinheiros estejam presos em barcos aleatórios na região, impossibilitados de circular.
Enquanto essa artéria central estiver obstruída, o impacto global é imediato. Pela primeira vez, o governo da China reduziu o preço dos combustíveis justamente em resposta a essa crise. Na Europa, o pânico energético é disseminado: vários governos estão retirando impostos sobre combustíveis para controlar os preços e pedindo para que as pessoas voltem a fazer “home office” para evitar a escassez. Na França, o governo tenta acalmar a população dizendo a cada dois dias que não faltará combustível, uma insistência que, ironicamente, soa como a confissão de um problema iminente.
Diante de tudo isso, o que mais me preocupa — um ponto muito bem levantado pelo colega Felipe Bueno durante nossa conversa na TMC 360 — é o risco perigoso da nossa própria imprensa e sociedade normalizarem a barbárie. Com o passar do tempo, as guerras saem das primeiras páginas e passamos a acreditar que a vida continua normal, quando ela não continua.
Vemos isso acontecer na Ucrânia, na Nigéria, no sul do Líbano e em Gaza, onde interrupções militares não significaram o fim da morte ou do sofrimento da população. Enquanto o fluxo político desvia a atenção mundial para as eleições de outros países, a guerra continua o seu curso. Acostumamo-nos a conviver com o inaceitável, assistindo à normalização de um mundo que sangra enquanto finge estar em paz.