As redes sociais fabricam crises em escala industrial. Quase diariamente somos atropelados por polêmicas. Algumas poucas têm substância, a maioria é ruído. Aproveitei uns dias de folga para ver o X sem o filtro profissional da notícia e encontrei aquele tribunal de sempre, que nunca tira folga.
Fiquei a par dos linchamentos da vez. A vencedora do BBB perdeu o pai a poucos dias da vitória e como exerceu o luto, ainda dentro do reality show foi alvo de questionamentos e críticas: não deveria contar histórias do pai rindo enquanto a família estava enterrando o corpo do lado de fora.
Teve também a Deborah Secco, que cometeu o “crime” de envelhecer e aparecer sob uma luz desfavorável. Esses são apenas dois exemplos de um fenômeno comum: a vida de terceiros como propriedade pública.
Entre tudo o que é passível de formarmos opinião, não entendo em que momento as escolhas e a personalidade de estranhos entraram no rol do que deve ser debatido ferozmente. Mas a opinião vazia não é usada apenas para futilidades. Estamos cercados de especialistas em absolutamente nada.
Como jornalista, a minha função é o senso crítico: entender para que lado o mundo pende e analisar os fatos. Já a minha opinião pessoal é outra história. Ela deveria ser o que guardo para o fim do processo, não o ponto de partida.
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Opinião é o que pensamos com base em julgamentos e experiências individuais. É pessoal e intransferível. Por isso, deveria ser manuseada com cuidado. Opinião exige repertório. Não à toa, em muitas culturas orientais, a idade é respeitada como acúmulo de experiência, não só como tempo de vida. Por aqui, ignoramos essa hierarquia do saber em favor do imediatismo do “eu acho”.
Ter opinião é um direito. Mas o uso indiscriminado desse direito – sob o escudo da liberdade de expressão – é o sintoma de uma armadilha digital. As redes nos venderam a ideia de que todo pensamento merece um palanque. O resultado disso é que quanto mais palmas queremos para a nossa opinião, mais nos fechamos em bolhas na tentativa de sermos mais validados e nos tornamos mais intolerantes.
É um ciclo vicioso: a convicção de que nossa visão é suprema nos torna, em resumo, insuportavelmente chatos. Estamos rodeados por eles. Os chatos. E, claro, não falo disso como uma grande descoberta e sequer como um fato novo. No entanto, não precisa ser novidade para incomodar. Até porque parece ter havido, nos últimos anos, um acordo secreto que nos obriga a conviver com esses chatos e, pior, achar que isso é o “novo normal”. Não é.
O problema é que o chato raramente se reconhece como tal. E quem não é chato, hoje, vive com medo de ser julgado por quem não tem o que dizer. Perdemos a etiqueta do silêncio. Precisamos resgatar a elegância – e a inteligência – de não ter uma opinião formada sobre tudo.