Entenda os motivos que levaram à queda de Keir Starmer e o que deve acontecer no Reino Unido agora

Premiê deixa o cargo pressionado por escândalos, derrotas eleitorais e rebelião interna; Andy Burnham desponta como favorito para assumir o governo

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O primeiro-ministro britânico, Keir Starmer, anuncia o cronograma de sua renúncia, após a vitória decisiva de Andy Burnham na eleição suplementar de Makerfield na semana passada, em frente ao número 10 da Downing Street, em Londres, Reino Unido
(Foto: Jack Taylor/Reuters)

A renúncia do primeiro-ministro britânico Keir Starmer, anunciada nesta segunda-feira (22/06), encerra de forma abrupta um governo que começou com uma das maiores vitórias eleitorais da história recente do Reino Unido. Menos de dois anos após levar o Partido Trabalhista à sua maior maioria parlamentar em um século, Starmer deixa o cargo pressionado por escândalos, derrotas eleitorais e pela perda de apoio dentro da própria legenda.

Eleito em julho de 2024 com a promessa de restaurar a estabilidade política após anos de turbulência sob governos conservadores, Starmer viu seu capital político se deteriorar rapidamente ao longo dos últimos meses.

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O episódio mais danoso para sua gestão foi o escândalo envolvendo Peter Mandelson, nomeado embaixador britânico nos Estados Unidos. Em setembro de 2025, vieram à tona informações sobre as ligações do diplomata com o financista Jeffrey Epstein, condenado por crimes sexuais. A demora do governo em afastar Mandelson provocou forte desgaste político e alimentou críticas à capacidade de julgamento do premiê.

Ao mesmo tempo, o governo enfrentou dificuldades econômicas e acumulou desgaste com medidas impopulares, como restrições ao auxílio para aquecimento durante o inverno e cortes em programas de assistência social. Os sucessivos recuos nessas políticas reforçaram a percepção de fragilidade da liderança de Starmer.

Outro fator decisivo para sua queda foi o avanço do Reform UK, partido de direita liderado por Nigel Farage. Nas eleições locais e regionais de maio deste ano, os trabalhistas sofreram derrotas expressivas em áreas historicamente favoráveis à legenda, ampliando o temor entre parlamentares de perderem seus próprios assentos em uma futura eleição geral.

A crise atingiu seu ápice quando integrantes do gabinete e deputados trabalhistas passaram a pressionar publicamente por um cronograma para sua saída. Sem apoio suficiente para permanecer no cargo, Starmer anunciou a renúncia e reconheceu que o partido já não o considerava o nome mais adequado para conduzir a legenda e o governo.

Andy Burnham desponta como sucessor

O principal favorito para substituir Starmer é Andy Burnham, de 56 anos, ex-prefeito da Grande Manchester e recém-eleito deputado por Makerfield.

Conhecido no Reino Unido como o “Rei do Norte”, Burnham construiu sua carreira política defendendo interesses das regiões do norte da Inglaterra. Ele foi deputado pela primeira vez em 2001 e ocupou o cargo de secretário de Saúde no governo de Gordon Brown entre 2007 e 2010.

Sua projeção nacional aumentou durante a pandemia de Covid-19, quando confrontou publicamente o então primeiro-ministro Boris Johnson em defesa de maior apoio financeiro para governos locais.

A força de sua candidatura cresceu após uma eleição suplementar realizada na última semana em Makerfield, região de perfil operário e favorável ao Brexit. Enquanto o Partido Trabalhista perdeu terreno para o Reform UK em diversas áreas do país, Burnham derrotou com ampla margem o candidato apoiado por Farage.

Nos bastidores, parlamentares trabalhistas passaram a enxergá-lo como o político mais capaz de conter a fuga de eleitores para a direita populista.

Sua posição foi fortalecida ainda mais após a desistência de possíveis concorrentes internos. O ex-secretário de Saúde Wes Streeting, considerado o principal rival na disputa pela liderança, anunciou apoio a Burnham, abrindo caminho para uma transição rápida dentro do partido.

Como será a escolha do novo premiê

Diferentemente do sistema presidencialista, os britânicos não elegem diretamente o primeiro-ministro. No parlamentarismo do Reino Unido, o chefe de governo é o líder do partido que possui maioria na Câmara dos Comuns.

Por isso, a saída de Starmer não obriga automaticamente a convocação de novas eleições gerais. O Partido Trabalhista mantém a maioria conquistada nas urnas em 2024 e tem o direito de indicar um novo líder para comandar o governo.

Pelas regras internas da legenda, um candidato precisa obter o apoio de cerca de 20% da bancada trabalhista — atualmente aproximadamente 81 deputados — para oficializar sua candidatura.

Se mais de um nome atingir esse número, os parlamentares realizam votações sucessivas até restarem dois finalistas. A decisão final, então, passa para os filiados do partido. Caso apenas um candidato reúna o apoio necessário, ele pode ser confirmado sem disputa.

Após a definição do vencedor, Starmer deverá formalizar sua renúncia ao rei Charles III, que então convidará o novo líder trabalhista a formar governo.

Oposição pede eleições, mas cenário é improvável

A oposição, liderada pelo Partido Conservador e impulsionada pelo crescimento do Reform UK, defende a realização de eleições gerais antecipadas. O argumento é que os eleitores votaram em um programa político associado a Starmer e não em seu provável sucessor.

Apesar da pressão política, especialistas consideram remota a possibilidade de uma nova eleição no curto prazo.

Pela legislação britânica, apenas duas alternativas poderiam antecipar o pleito: uma decisão voluntária do novo primeiro-ministro ou a aprovação de uma moção de desconfiança no Parlamento.

Como os trabalhistas ainda possuem ampla maioria na Câmara dos Comuns, a oposição não dispõe de votos suficientes para derrubar o governo sem uma grande rebelião da própria bancada governista.

Dessa forma, a tendência é que o Partido Trabalhista mantenha o controle do governo até o fim do mandato parlamentar, previsto para 2029, salvo mudança significativa no cenário político britânico.

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